As táticas que os terroristas usam para nos causar dor estão perdendo efetividade, mas as tentativas se multiplicam. E o medo, embora preferimos não admiti-lo para poder seguir adiante, se deixa sentir em quisques de Berlim, nas praias do Mediterrâneo ou nas casas de shows mais populares da França e do Reino Unido. Os muçulmanos gritam "não no nosso nome", mas não é suficiente. Os governos combatem o terrorismo com mais sucesso do que fracasso - como é o caso da Espanha -, ao mesmo tempo em que os políticos lançamos ambiciosas ideias para prevenir futuros ataques. Até assim, nem sempre é suficiente. É preciso uma vontade real, tanto por parte dos representantes públicos como da comunidade islâmica para pôr fim à barbárie. E esta vontade, para se ter resultado, deve ter dimensão europeia.

Todos concordamos que o terrorismo jihadista é um fenômeno transnacional e, portanto, só pode ser combatido com eficácia a nível europeu. Sabemos, além disso, que o enfoque deve se sustentar nos pilares combinados da integração, da prevenção e da atuação decidida contra os assassinos, consumados e em potencial. E hoje, como ocorre após cada ataque, desgraçadamente sabemos uma coisa a mais: que o fator humano continua pesando na hora em que um indivíduo ou um grupo decidem matar.

Radicalizadores e radicalizados, doutrinadores e doutrinados.

O fator humano é, de fato, um dos elementos aos quais pesquisadores do Real Instituto Elcano deram atenção. Apontando, com acerto, os dois fatores que explicam a radicalização na Espanha, destacaram que o processo se desenvolve lado a lado na maioria dos casos, por meio de contato com agentes radicalizadores e, em menor medida, através da internet.

Além disso, ressaltaram como segundo fator a existência de laços sociais prévios com outros indivíduos radicalizados, tais como combatentes que voltaram da Síria e do Iraque ou detidos e condenados por atividades relacionadas ao terrorismo.

Entre os principais agentes de radicalização destacam-se personalidades religiosas, amigos e familiares. Embora seja mais difícil penetrar nos vínculos afetivos, a partir das administrações públicas é possível, e urgente, preencher as lacunas que existem na regulação do ensino da fé islâmica.

Desde os atentados na Catalunha, ouve-se com maior clareza a voz das próprias associações islâmicas, que exigem a elaboração de um censo nacional de imãs e a regulamentação do seu processo de formação. Ambas são tarefas que devem ser abordadas de maneira prioritária. Fazê-lo na Espanha é um primeiro passo, mas o realmente necessário é trabalhar nisso a nível europeu, conseguindo unificar critérios e melhorando as redes de transmissão de informação. Em caso contrário, a história do falso imã que é praticamente expulso de Vilvoorde (Bélgica) e, no entanto, acolhido em Ripoll (Espanha) pode se repetir a qualquer momento.

A primeira proposta é simples: configurar uma lista profunda de quem predica nas mesquitas, especialmente nas de menor tamanho e nos lugares onde, fora de qualquer registro, se segue uma religião não normalizada. Depois, atualizar a lista a nível europeu conforme vão acontecendo mudanças preocupantes nas pautas de ensino ou nas relações dos líderes religiosos com as diferentes comunidades locais.

A segunda é dupla: a formação dos imãs deve acontecer em território europeu e deve ser feita tanto em teologia como em ciências sociais e humanísticas. Isto quer dizer que o currículo deve ser regulado, elaborado em cumprimento das normas educacionais e religiosas estabelecidas na União Europeia. E a atividade profissional a ser exercida assim que for completada a etapa de formação deve respeitar os princípios básicos que regulam a vida pública. Consequentemente, o conhecimento de e o respeito pela língua, a história, a cultura e os valores da sociedade comunitária devem ser condições sine qua non para qualquer indivíduo que queira ser um imã dentro da União Europeia.

Não menos importante é o fator da integração cultural. Até agora, em muitos lugares da Europa, houve tentativa de firmar um islã (de inspiração) saudita, catariana ou marroquina. Daqui em diante, devemos avançar para um islã europeu, compatível com os valores dos que elaboram as normas vigentes nos 28 países membros. Assim o exigem os próprios muçulmanos de boa vontade e assim será garantida a convivência pacífica nas próximas décadas.

Se o afrodisíaco do jihadismo é a versão salafista do islã, a vacina contra o radicalismo violento deve ser a sua versão mais integradora e tolerante. Um jovem que estiver buscando sua identidade religiosa corre o risco de recorrer à internet - que é justamente onde o Daesh divulga a sua propaganda de ódio - ou a encontrar nos centros de ensino ou na sua família. E é precisamente no seio familiar que crianças e jovens muçulmanos melhor podem aprender onde acaba o islã e onde começa o extremismo destrutivo.

Na Europa há décadas brota um certo islamismo (minoritário, mas com alarmante poder destrutivo) que tem se aproveitado de um vazio de leis para derivar, dentro de certos grupos, para o radicalismo. É tempo de preparar o terreno para que qualquer tendência neste sentido se veja encurralada por um islã pacífico, um islã verdadeiramente europeu, e portanto respeitoso para com os nossos costumes, os nossos valores e nosso modelo de vida em liberdade.

O propósito do terrorismo de inspiração salafista é enfrentarmos os membros muçulmanos da nossa comunidade, e isso não deve ter sucesso. Ao contrário: em vez de alimentar a fratura social que se busca, responderemos exigindo aos nossos muçulmanos que colaborem com a sua sociedade, com a sociedade à qual pertencem, que é a europeia. Porque só destruindo o fenômeno de dentro, e só permanecendo unidos, tanto dentro das nossas comunidades como no marco da União Europeia, conseguiremos derrotar o jihadismo.

Ramón Luis Valcárcel, vice-presidente do Parlamento Europeu e eurodeputado pelo Partido Popular da Espanha.

NOTA: Este artigo faz parte do serviço de articulistas da Agência Efe, com o qual contribuem diversas personalidades, cujos trabalhos refletem exclusivamente as opiniões e pontos de vista de seus autores.