EFESão Paulo

Vazamentos e outros problemas na distribuição de água provocaram uma perda de 3,5 bilhões de metros cúbicos (ou 3,5 trilhões de litros) de água no Brasil em 2017, o que seria suficiente para abastecer 30% da população do país por um ano.

Se considerarmos o volume total de água captada, tratada e pronta para ser distribuída (quase 17 bilhões de metros cúbicos), a taxa de desperdício foi superior a 20%, ou seja, 1 a cada 5 litros.

A conclusão é do estudo "Perdas de Água: entraves ao avanço do saneamento básico e riscos de agravamento da crise hídrica no Brasil", conduzido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados com patrocínio da empresa Itron, líder global em tecnologia e serviços dedicados ao uso eficiente da água.

"A água é o petróleo do futuro: essencial à vida, à saúde e à sustentabilidade humana. Vejo com preocupação o fato de o Brasil, depois de uma crise hídrica, piorar seus índices de desperdício de água, ficando atrás de outros países latinos e de africanos", disse à Efe o vice-presidente de vendas da Itron para a América Latina, Emerson de Souza.

A pesquisa também aborda outra matéria relevante no que se refere ao sistema de distribuição de água: o volume não-faturado, ou seja, que deixa de ser cobrado ao consumidor, em virtude de erros na leitura dos hidrômetros ou do furto de água, popularmente conhecido como "gato".

No total, houve mais de 3 bilhões de metros cúbicos não-faturados. Se essa quantidade for somada ao volume perdido, chega-se a um total de 6,5 bilhões de metros cúbicos (38,3% do total) não-rentáveis. Financeiramente falando, é o equivalente a cerca de 11,3 bilhões de reais, um pouco a mais do que os 11 bilhões investidos no sistema de água e esgoto do país no mesmo ano. Em 2015, o volume de água não faturada foi de menos de 6 bilhões de metros cúbicos, com prejuízo de 9,8 bilhões de reais.

"As perdas de água são um sinônimo da ineficiência do sistema de produção e distribuição das empresas operadoras. É preocupante pensar que, num momento de crise hídrica, não será suficiente pedir para que a população economize água se as empresas continuarem perdendo bilhões de litros por deficiências diversas", declarou o presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos.

Para Emerson de Souza, as ações de combate às perdas devem atingir não apenas os cidadãos, mas também o poder público, as distribuidoras e as indústrias.

"Não tem como indicar um responsável. É todo um ecossistema, que interliga os usuários, que precisam ser melhor orientados; mas também os governos e distribuidoras, que precisam melhorar o sistema; as indústrias que utilizam a água; as empresas de tecnologia e até mesmo a legislação, que precisa ser mais coesa e unificada", avaliou.

O índice de perdas de faturamento do Brasil (39,2%) é muito superior ao de países desenvolvidos, como Dinamarca (6,9%), Austrália (10,3%) e Estados Unidos (12,8%). Contudo, supera - negativamente - números de países da América Latina, como México (24,1%) e Equador (31,1%), e até mesmo de Bangladesh (21,6%) e Uganda (33,5%).

A região com pior desempenho na distribuição de água foi o Norte do país, com cerca de 55% de perdas, contra 34% do Centro-Oeste. Entre os estados, Roraima perde 75% da água distribuída, enquanto Goiás não aproveita 26%. Considerando as 100 maiores cidades brasileiras, Santos, no litoral paulista, possui o melhor desempenho, perdendo 14% de sua água. Por outro lado, Porto Velho não aproveita mais de 77%.

Para o futuro, o estudo avaliou que, caso o Brasil faça os investimentos necessários em infraestrutura, com a implantação de caça-vazamentos e caça-fraudes, além da troca de tubulações, conexões, ramais e hidrômetros, a expectativa é de que os níveis de perda cheguem a 20% até 2033. Além disso, o potencial de ganho financeiro líquido até a data é projetado em 31 bilhões de reais.

"Além da atualização dos hidrômetros e da troca de tubulações por vezes centenárias, podemos medir o consumo em áreas menores, o que ajudaria a segmentar melhor os investimentos e a identificação de fraudes, e automatizar a leituras dos hidrômetros. No fim das contas, isso traria economia para o poder público e para o próprio consumidor, já que, com menor prejuízo, as empresas podem cobrar tarifas menores", explicou Souza.

"A redução de perdas é o maior manancial que o Brasil possui. Tal desafio requer uma ação conjunta de todos os agentes envolvidos no setor", avaliou Édison Carlos.

A Itron já possui parcerias com grandes distribuidoras do país, como a Sabesp (região metropolitana de São Paulo) e a Sanasa, de Campinas, que apresenta ótimos índices. A empresa trabalha, no ramo de água e abastecimento, com medidores, sistemas automatizados, tecnologia para pressurização e sensores de rede.