EFEWaldheim García Montoya. Caruaru

Em meio às comidas típicas e ao forró, um grupo mantém viva a tradição e a arte dos bacamarteiros, protagonizando um espetáculo de disparos de pólvora seca em algumas das maiores festas juninas do país.

Com o retorno dos grandes eventos de rua após dois anos de severas restrições devido à pandemia de covid-19, tropas de bacamarteiros voltaram a se apresentar em festas como o grandioso São João de Caruaru, em Pernambuco.

A tradição, segundo algumas versões, remonta à homenagem prestada durante as festas populares de junho pelo nascimento de São João Batista por parte dos soldados do Nordeste que estiveram na Guerra do Paraguai (1865) e que carregavam seus próprios bacamartes.

Sergipe, Paraíba e, principalmente, Pernambuco, foram os estados que incorporaram os bacamarteiros em suas festas juninas e mantiveram a tradição viva por mais de um século e meio.

Com camisas e calças azul claro, um lenço no pescoço, um chapéu de palha, um cartucho sempre carregado com pólvora seca e, no caso do sargento da tropa, um apito para sinalizar os disparos coletivos, os bacamarteiros se tornaram parte da cultura das festas juninas.

Caruaru, uma das maiores cidades do Nordeste, celebra aquele que por muitos é considerado o maior festival de São João do mundo, com a presença de 3 milhões de pessoas durante todo o mês, e preserva o patrimônio dos bacamarteiros.

O jornalista José Máximo Neto, ao contrário de seus colegas soldados do "Primeiro Batalhão de Bacamarteiros de Caruaru", não herdou a arte de seus pais e avós, mas de um vizinho quem lhe transmitiu a técnica e a tradição que ele agora compartilha com o filho.

Consideradas obsoletas no armamento comercial, essas armas "são feitas à mão, e há vários ferreiros espalhados pela região que fabricam o bacamarte", contou Neto à Efe.

O bacamarte é disparado com rastilho e pólvora seca, o que aumenta o ruído da explosão e da fumaça, e desde 2012, após uma série de prisões de seus praticantes por posse ilegal de armas, as autoridades consideraram a arma obsoleta e endossaram sua prática como arte popular.

Neto e outros bacamarteiros de Caruaru encaram agora o desafio de transmitir o patrimônio de sua arte às novas gerações.

"A internet e os jogos eletrônicos dificultaram, mas graças a Deus há muitas crianças que brincam conosco, mas (porque são menores) não podemos levá-las a apresentações e a lugares públicos como estes. Mas conseguimos manter tudo isso vivo com os meninos", disse.

Durante todo o mês, os bacamarteiros estarão presentes nas festividades em Caruaru, e em 24 de junho cerca de 500 de todo o estado de Pernambuco vão participar na cidade de um tradicional encontro anual e uma apresentação coletiva de todas as tropas. EFE