EFEEduardo Davis, Brasília

Com a presença do presidente Jair Bolsonaro, o Brasil assumirá a presidência rotativa do Mercosul por um período de seis meses na próxima quarta-feira, durante a cúpula dos chefes de Estado do bloco, que será realizada na cidade de Santa Fé, na Argentina.

Bolsonaro participará da 54ª Reunião do Conselho do Mercosul e países associados. Sob a presidência temporária brasileira, o bloco deve se dedicar à revisão legal do acordo comercial com a União Europeia (UE), anunciado em 28 de junho em Bruxelas após duas décadas de negociações e que abrirá passagem a Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai um mercado de quase 800 milhões de consumidores.

Uma vez concluído este processo burocrático, o acordo deverá ser traduzido aos 30 idiomas oficiais de todos os países envolvidos e depois submetido aos Parlamentos de cada um deles para as respectivas ratificações.

Apesar de estar previsto que esses trâmites durarão pelo menos três anos, os países do Mercosul consideram que o acordo com a UE é um sinal de que o bloco recuperou sua capacidade negociadora e que está em condições de ampliar sua presença no mundo.

Macri já havia antecipado que a Argentina, junto com o Brasil, discute uma possível negociação com os Estados Unidos para um acordo de livre-comércio que, apesar de ser uma iniciativa de ambos os países, depois poderia ser ampliado aos outros parceiros do Mercosul.

Tanto Macri como Bolsonaro mantêm uma relação amigável com o líder dos EUA, Donald Trump, o que fontes oficiais brasileiras disseram à Agência Efe que poderia facilitar um acordo que, segundo elas, exigiria "longas negociações".

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, antecipou que o Mercosul pretende utilizar o acordo com a UE como uma espécie de "cartão de visita" para outras negociações.

Segundo o chanceler, um dos objetivos da presidência semestral do Brasil será tentar concluir pelo menos "duas" das negociações que o bloco sul-americano tem em curso.

Embora não tenha informado quais estão mais avançadas, Araújo disse que entre os tratados que poderão ser concluídos estão os negociados com Acordo Europeu de Livre-Comércio (EFTA), Coreia do Sul, Singapura e Canadá.

O ministro ressaltou que, com a chegada ao poder de líderes como Macri, Bolsonaro e o paraguaio Mario Abdo Benítez, todos de linha conservadora, o Mercosul livrou-se de "amarras ideológicas" e recuperou o "pragmatismo" e a "vocação" pelo livre-comércio.

O horizonte, no entanto, apresenta algumas nebulosidade, tanto em relação ao futuro do acordo com a UE como na frente interna do Mercosul.

Na Europa, a França sugeriu que a ratificação do acordo com o Mercosul pode ter problemas no Parlamento nacional, no qual há setores dispostos a dificultá-lo por diversas razões, entre elas estão as agressivas políticas de Bolsonaro para à Amazônia.

Na interna, a Argentina irá às urnas em outubro para eleições nas quais nada garante que Macri será reeleito.

As pesquisas mostram um eleitorado polarizado entre Macri e o peronista Alberto Fernández, que tem como candidata a vice-presidente a ex-presidente Cristina Kirchner e expressou receios sobre o acordo com a UE, que segundo ele "sem dúvidas" será "revisado" se chegar ao poder.

Também em outubro haverá eleições presidenciais no Uruguai, mas nesse caso não se teme um maior impacto político no bloco sul-americano, no qual tanto o partido governista Frente Ampla como a oposição mantêm uma firme aposta que supera as diferenças ideológicas.