EFESão Paulo

A reversão da colostomia, que para o presidente Jair Bolsonaro foi uma operação em um dos hospitais particulares mais modernos da América Latina, para muitos brasileiros é sinônimo de meses de espera em um sistema de saúde pública saturado.

Bolsonaro recebeu alta nesta quarta-feira após duas semanas internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde se recuperou da cirurgia para retirar a bolsa da colostomia colocada após ele ter sido esfaqueado no abdômen em setembro do ano passado durante um ato de campanha eleitoral em Juiz de Fora (MG).

A colostomia é um procedimento cirúrgico através do qual se desvia o trânsito intestinal para o exterior do corpo, neste caso, a uma bolsa à qual chegam os excrementos, com o objetivo de evitar complicações na área que acaba de ser operada.

O próprio Bolsonaro reconheceu que o tratamento que recebeu é um privilégio para grande parte da população do país.

"Sabemos que pouca gente pode ter um tratamento como este, mas também temos plena consciência de que nosso SUS (Sistema Único de Saúde) pode melhorar, e muito. Tudo faremos para que isso se torne uma realidade", escreveu Bolsonaro no último domingo, ainda no hospital, em suas redes sociais.

O Albert Einstein foi criado em 1955 por causa de uma "reunião de amigos", segundo a própria instituição, na qual o médico Manoel Tabacow Hidal propôs a fundação de um hospital para retribuir aos brasileiros o apoio dada à comunidade judaica chegada após a Segunda Guerra Mundial.

O principal concorrente no setor é o Sírio-Libanês, também particular, onde já receberam tratamento os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Essa realidade é diferente da de muitos brasileiros que se veem presos a um sistema público deficiente e saturado. Para a reversão da colostomia, a espera pode passar de um ano.

Este é o caso de Isaque Ferreira da Silva, de 64 anos e que carrega há um ano e dois meses a bolsa de colostomia.

Em dezembro de 2017, ele foi operado com urgência em um hospital público de São Paulo depois que os médicos detectaram uma perfuração no intestino. A bolsa de colostomia foi implantada, e ainda hoje Isaque está com ela.

"Tenho que fazer um exame primeiro, e enquanto não fizer esse exame não posso fazer a cirurgia (para a retirada da bolsa)", disse Isaque, que ainda trabalha realizando serviços gerais, como os de eletricista e encanador.

O problema é que a máquina para fazer a colonoscopia prévia à operação esteve quebrada durante praticamente todo ano de 2018, em mais exemplo do estado precário da saúde pública no país.

"No particular, fazer esse exame custa R$ 870. Não tenho esse dinheiro, não para fazer esse exame", afirmou Isaque, que está há um ano sem trabalhar em totais condições por não poder carregar muito peso devido ao risco de que aconteça algo com a bolsa.

Fontes do SUS confirmaram à Efe que efetivamente a lista de espera para a reconstrução do trânsito intestinal é "bem mais demorada", pois a prioridade são as urgências.

A recomendação para a retirada da bolsa, que tem que ser esvaziada todos os dias e é trocada em média uma vez por semana, é a partir dos três meses da sua implementação e sempre que o paciente estiver em ótimas condições para isso.

Em 2018, o SUS completou 30 anos com o grande desafio de um financiamento eficiente, pois 80% dos mais de 200 milhões de brasileiros depende exclusivamente dele para qualquer tipo de atendimento médico, segundo dados oficiais.

Além disso, nos últimos oito anos foram perdidos 34.000 leitos no país, que se somam aos R$ 174 bilhões do orçamento para saúde que deixaram de ser usados desde 2003, de acordo com o Conselho Federal de Medicina.

Para Isaque, aos pobres só resta o pior do pior: "O pobre não pode comer nem a grama seca, só a raiz dela."

Carlos Meneses Sánchez.