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Tecnologia usada para criar vídeos manipulados, mas extremamente realistas, a 'deepfake' é o novo desafio no combate à desinformação, alertaram especialistas durante um seminário internacional realizado nesta sexta-feira em Brasília.

"As 'fake news' chegaram para ficar. Elas são como a droga, têm oferta e demanda. A oferta é quase incontrolável", afirmou o brasileiro Maurício Moura, membro da consultoria Ideia Big Data.

Moura foi um dos cerca de 30 participantes do Seminário Fake News e Eleições, promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pela União Europeia para discutir os efeitos das notícias falsas e as formas de minimizar a propagação desse tipo de conteúdo no futuro.

O especialista brasileiro alertou que a era das 'fake news' criadas por humanos é menos preocupante do que o fenômeno que se avizinha: o das 'deepfakes'.

"Todas as universidades concordam sobre a necessidade de incorporar a verificação de notícias", destacou Moura.

As notícias falsas têm sido propagadas por todo o mundo nos últimos anos e influenciado uma série de eleições, como no caso do referendo do Reino Unido para deixar a União Europeia, o Brexit. No ano passado, elas também tiveram papel relevante na campanha eleitoral do Brasil, que terminou com a vitória de Jair Bolsonaro.

O ex-ministro da Defesa Raul Jungmann lembrou que o próprio TSE foi alvo de uma campanha maciça para minar sua credibilidade, já que a confiabilidade das urnas eletrônicas foi reiteradamente questionada por Bolsonaro, que posteriormente se retratou.

"O ataque à esfera pública aniquila a própria verdade e isso afeta a democracia. Isso não ocorre só no Brasil, ocorre no mundo todo", ressaltou Jungmann, moderador de um dos painéis.

Para o consultor de marketing digital e estrategista político brasileiro Marcelo Vitorino, o uso de 'fake news' durante as campanhas políticas asfixiam o debate democrático. Os candidatos acabam gastando o tempo que deveria ser investido em apresentar propostas se defendendo das acusações feitas contra eles.

Vitorino propões que os tribunais eleitorais regionais criem grupos especializados em analisar crimes cometidos virtualmente.

"Faço várias denúncias quando faço campanha, mas elas acabam muitas vezes sem serem julgadas", disse o consultor.

Os especialistas destacaram que o fenômeno das notícias falsas não é novo, mas os avanços tecnológicos contribuíram para expandi-lo. Por isso, defenderam a importância da educação.

"Há uma necessidade de investir muito em educação", destacou o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Daniel Bramatti.

Para Bramatti, a desinformação não pode ser combatida somente com leis, que podem representar um grande risco para a liberdade de imprensa e para os próprios veículos de comunicação.

Como exemplo, o presidente da Abraji citou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que censurou a revista "Crusoé" e o site "Antagonista" por publicar uma matéria que ligava o presidente do STF, Dias Toffoli, a uma delação do empresário Marcelo Odebrecht.

O seminário foi aberto pela presidente do TSE, Rosa Weber, e contou com a participação do vice-presidente do STF, Luiz Fux, e do ministro de Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.