EFEParis

Alessandro Contente, um líder autoritário e manipulador, chega ao poder em um dos países mais importantes do planeta, a Federação Democrática da Amazônia. Seu companheiro inseparável é um tranquilo tamanduá.

Assim começa "La Tamanoir" (O Tamanduá, em tradução livre), uma obra inspirada no governo de Jair Bolsonaro, que romance e fábula e foi publicada em francês pela editora Le Poisson Volant.

O autor, David A. Lombard, encontra no livro um terreno fértil "para atacar a epidemia de populismos" que está se propagando por diversos continentes.

"Comecei a escrevê-lo em setembro de 2019, nove meses depois da posse de Bolsonaro. Suas subidas de tom já tinham ressoado antes. O romance é uma forma de despertar político, complementar aos ensaios e ao jornalismo", disse Lombard, em entrevista à Agência Efe.

Durante um ano e meio, o médico parisiense alternou as longas jornadas de trabalho no consultório com a redação da obra de 500 páginas, que traz várias histórias que acontecem em diversos pontos do planeta, mas que acabam convergindo no Brasil.

Seu "vínculo afetivo" com o país, feito a partir de viagens, amizades e admiração pela cultura local, o fez se interessar pelo que acontecia no governo de Bolsonaro, que considera um reflexo da corrente "demagógico populista" adotada em outras nações.

"O Brasil é importante no plano geopolítico, demográfico e econômico. O que acontece ali, também tem implicações ecológicas fortes" para o restante do mundo.

A proteção do meio ambiente é, de fato, um dos eixos sobre o qual gira a obra, que apresenta vários episódios inspirados na onda de incêndios que atingiu a Amazônia entre julho e setembro de 2019.

O feminismo também é marcante na história, como revela Lombard.

"As personagens mulheres são fortes, talvez, mais do que o homem", disse o autor;

Ele destaca a primeira-dama, mulher de Alessandro Contente, Atia, que "revela sua grandeza" quando desafia o marido.

Já o tamanduá, um exemplar do tipo albino, é a peça que dá sentido a fábula, e a curiosa relação com o protagonista abre as portas para interpretações.

Para o líder autoritário, é um animal dócil, um amuleto que ganhou de presente quando chegou ao poder. A partir daí, se torna imprescindível, pois come o que ele mais tema no mundo: os insetos.

"Personifica a natureza selvagem e ingênua. Seu caráter doce e plácido se contrapõe aos arroubos instintivos da personagem de Contente", conclui o autor. EFE