EFEWaldheim García Montoya. Recife

O compositor baiano José Carlos Capinan completa 80 anos nesta sexta-feira lembrado como um dos poetas mais combativos do tropicalismo, movimento que ele ajudou a levantar ao escrever letras de músicas para sucessos como "Soy loco por ti, América", interpretada por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Celia Cruz, e que esconde uma homenagem a Che Guevara.

Com letra em espanhol de Capinan e música de Gil, aa canção foi um pedido explícito de Caetano aos compositores em 9 de outubro de 1967, dia da morte do guerrilheiro argentino Ernesto 'Che' Guevara nas selvas da Bolívia, para entrar no primeiro repertório da Tropicália.

"É uma canção que foi feita no dia em que Che Guevara foi assassinado, que é um ícone do idealismo de transformação da liberdade na América", declarou o compositor octogenário à Agência Efe em uma entrevista por telefone.

Além de uma homenagem ao revolucionário argentino, a canção, afirmou Capinan, "mostra o aprofundamento nessa questão de expressar a afinidade dos povos da América Latina".

"É uma letra da luta contra a submissão ao império, e arrisquei nessa linha, de tentar compor em espanhol com minha visão do mundo, numa época em que Cuba tinha uma produção artística e cultural muito intensa", frisou o também autor de "Papel maché", outro dos grandes sucessos do tropicalismo.

"El nombre del hombre muerto ya no se puede decir, quién sabe?" é um dos refrões da canção em que Capinan deixa nas entrelinhas a homenagem a Che, fato que só veio a ser abordado abertamente pelo próprio Caetano com o fim da ditadura militar, em 1985.

Em entrevista ao jornal "O Globo" de 2012, Caetano revelou que a cubana Celia Cruz, que morreu em 2003, havia se recusado a interpretar a canção porque tinha aquela homenagem implícita a Che, mas mais tarde, numa visita ao Brasil, acabou gravando "Estoy loco por ti, América", que seria o nome gramaticalmente correto.

Capinan, que viajou várias vezes a Cuba e estabeleceu laços com a ilha, considerou que naquela época o país caribenho, apesar de seu boom cultural, "tinha seus canais muito bloqueados para uma língua comum com o restante da América" e é por isso que sua canção aproximou essas afinidades latino-americanas.

O que estreitou ainda mais os laços da cultura brasileira com o restante da América Latina foi o uso do "portunhol" na canção, que desde o início nasceu com um erro gramatical no título ao misturar frases em português e espanhol.

Uma versão mais moderna de "Soy loco por ti, América", cantada por Ivete Sangalo, foi nos anos 2000 o tema da novela da Globo "América", que tratou da migração de brasileiros e mexicanos nos Estados Unidos.

O LEGADO DE CAPINAN.

Capinan foi considerado, juntamente com Torquato Neto, um dos mais importantes compositores da Tropicália, um movimento irreverente, questionador e revolucionário que incorporou nuances estrangeiras e as fundiu com seus próprios elementos para criar novos produtos artísticos em meio à ditadura. Ao longo da carreira, o poeta se destacou como ativista do movimento negro.

Aos 80 anos de idade, o jornalista, advogado e médico também dirige o Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira, no Centro Histórico de Salvador, um ativismo que é retratado no documentário "O Silêncio que Canta por Liberdade", de Úrsula Corona.

"Quando vejo um Brasil mais intenso, do nordeste, por exemplo, de negros e revoluções, ele me aproxima da América Latina e porque é um Brasil que mostra mais de sua verdadeira realidade, que está aqui e em qualquer país da América Latina", afirmou Capinan sobre sua luta, como um homem branco, pela causa negra.

A "continuidade da repressão e do caciquismo" mantém em vigor, por sua vez, "um anti-colonialismo daquele Brasil, real, oprimido", considera o compositor, que no documentário biográfico a ser lançado neste ano também terá o reconhecimento de outros artistas que o cantaram, como Alceu Valença e Gal Costa.