EFESão Paulo

O glaucoma, que acontece pelo aumento da pressão dentro do olho, é a principal causa de cegueira irreversível e atinge entre 1% e 2% da população mundial, mas, segundo uma pesquisa realizada recentemente pelo Datafolha à qual a Agência Efe teve acesso, apenas 49% dos brasileiros sabem que essa doença silenciosa e sem cura pode levar à perda da visão.

O estudo, encomendado ao Instituto Datafolha pela Allergan/AbbVie e realizado em outubro de 2021, mostrou também que, apesar de menos da metade dos entrevistados estarem conscientes das graves consequências do glaucoma, 74% deles disseram conhecer a doença.

O fato preocupa especialistas e ressalta a importância de conscientizar a população para a busca de um diagnóstico precoce e acompanhamento adequado, segundo explicou em entrevista à Efe o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Emilio Suzuki.

O oftalmologista afirmou que existe um certo "negacionismo" em relação à doença, que se deve principalmente ao fato de ela ser silenciosa. O glaucoma se dá quando o aumento da pressão intraocular começa a lesionar o nervo óptico, que não é sensitivo, causando danos irreversíveis à visão sem que o paciente sinta qualquer tipo de dor ou alteração em fases iniciais.

Esse aumento de pressão ocorre, fundamentalmente, por um excesso de líquido dentro do olho, que pode ocorrer devido à uma produção elevada dessa substância ou por algum problema que dificulte sua absorção por parte do próprio órgão.

Apesar de simples, o tratamento - normalmente feito com o uso de colírios que corrigem esta dinâmica - é para a vida toda, e como os resultados não podem ser claramente percebidos, a adesão costuma ser baixa, o que pode causar grandes transtornos para os pacientes, já que só procuram um médico quando sofrem alguma alteração na visão.

Também é possível optar por tratamentos a laser ou cirúrgicos que melhoram ou escoamento do líquido ou reduzem a produção, dependendo do estágio da doença ou do tipo de glaucoma.

"O glaucoma é uma doença assintomática, então a pessoa não percebe no princípio, ela tem que confiar no médico e nos exames que está fazendo. Fazendo um tratamento adequado, a chance de ter o quadro estabilizado é enorme, e quanto mais cedo o diagnóstico for feito, menor impacto o paciente terá em sua visão", destacou.

No entanto, para Suzuki, o maior desafio é o acesso ao conhecimento, o que poderia modificar o atual cenário e fazer com que mais pessoas buscassem profissionais da área para fazer exames periódicos, principalmente aqueles que são considerados como grupo de risco, entre eles indivíduos com mais de 40 anos, negros, com miopia, com histórico de pressão elevada ou que fazem uso frequente de corticóides.

De acordo com a pesquisa do Datafolha, que entrevistou 2.088 pessoas maiores de 16 anos de 130 municípios brasileiros, apenas 42% deles afirmaram que procuram um oftalmologista pelo menos uma vez por ano, e a maioria (95%) realiza o "teste de leitura das letrinhas".

Porém, somente 4 em cada 10 relataram terem realizado outros tipos de exames, como mapeamento de retina ou ultrassonografia.

Por isso, a SBG e a farmacêutica Allergan, empresa que faz parte do grupo AbbVie, lançaram neste maio, mês nacional de combate ao glaucoma, uma campanha informativa para conscientizar a população e incentivar a busca por profissionais da saúde para a realização de um diagnóstico precoce e de um acompanhamento adequado.

Além de ações presenciais em clínicas e realização de exames em alguns locais, a campanha pretende levar informação a diversos públicos através de diferentes plataformas de comunicação, e contará inclusive com a participação do ator e influenciador digital Ary Fontoura, que tem mais de 4 milhões de seguidores no Instagram.

"Nosso objetivo é dismistificar a doença, desconstruir tabus mal resolvidos e criar uma rede de conhecimento. Quanto mais conhecimento correto e acessível nós tivermos, melhor, porque assim podemos alcançar mais pessoas (...) Queremos que o glaucoma seja tão conhecido quanto doenças como pressão alta, diabetes, dengue ou até mesmo a covid-19", disse Suzuki.

Para o médico, este é o momento de "recuperar o tempo perdido" durante a pandemia de covid-19, que agravou a situação de muitos portadores de glaucoma, que chegaram a perder a visão por falta de tratamento e acompanhamento.

"No início da pandemia, aquela questão de ficar em casa foi terrível para o glaucoma. Muitos pacientes deixaram de procurar assistência médica ou abandonaram seus tratamentos, até porque a maioria dos locais que ofereciam esses serviços tiveram que fechar as portas e reabrir, depois, com uma capacidade menor de atendimento", relatou o especialista.

"A prioridade era cuidar da covid-19, das UTIs, então a gente perdeu tempo, e muitos pacientes foram prejudicados, e agora é o momento de priorizar aqueles que se perderam durante a pandemia", acrescentou ele.

Segundo o Atlas Vision, elaborado pela Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IABP, na sigla em inglês), pelo menos 3 milhões de pessoas cegas no mundo têm glaucoma, enquanto cerca de outras 4 milhões sofreram perdas de moderadas a graves de visão devido à doença.

O relatório também estima que o número de pessoas afetadas por glaucoma, de qualquer grau e com ou sem diagnóstico, pode chegar a 118 milhões em 2040. EFE