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As mortes de 855 mil pessoas causadas por armas de fogo no Brasil entre 1990 e 2015 poderiam ter sido evitadas, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira por pesquisadores canadenses que apontou que a raça e a educação determinam as taxas de mortalidade por este motivo.

O documento, criado por pesquisadores da Universidade de Toronto (UofT) e publicado na revista científica "The Lancet Publich Health", analisou mais de 106 milhões de mortes em Brasil, Estados Unidos, México e Colômbia, e revelou que a violência por armas de fogo é a principal causa de mortalidade para homens entre 15 e 34 anos nesses países.

No total, nesses quatro países, foram contabilizadas 1,8 milhão de mortes por armas de fogo que poderiam ter sido evitadas entre 1990 e 2015.

A pesquisa mostrou que o nível de estudos e a composição racial da população foram fatores de grande influência na taxa de mortalidade nesses quatro países, afirmou em entrevista à Agência Efe o autor principal, o professor Prabhat Jha, da Escola de Saúde Pública Dalla Lana da UofT.

De acordo com os dados recompilados, nos Estados Unidos o principal indicador da diferença quanto à taxa de mortalidade por arma de fogo é racial, enquanto em Brasil, México e Colômbia é o nível de educação.

Jha declarou que "no mais lugar mais alto da lista estão os homens jovens negros entre 25 e 34 anos dos Estados Unidos que não têm educação secundária, que correm 14 vezes mais risco de morrer por arma de fogo do que os brancos com o mesmo nível de educação".

"De fato, os homens jovens negros nos Estados Unidos lidam com a taxa mais alta de homicídios por arma de fogo, acima da população negra no Brasil, por exemplo".

Jha acrescentou que, como norma geral, embora o nível educativo reduza a mortalidade por armas de fogo, nos Estados Unidos os números relativos aos homens negros com educação universitária são muito superiores aos dos brancos com educação similar.

"As taxas de mortalidade daqueles com educação pós-secundária ou superior se reduzem a 20% sobre aqueles com menos educação", explicou o pesquisador canadense.

Nos EUA pesam mais as diferenças raciais do que as diferenças em educação. "Os homens negros de 25 a 34 anos, inclusive aqueles com educação acima do ensino médio, tinham 30 vezes mais risco de morrer por arma de fogo do que um homem branco com educação comparável", detalhou.

"E um homem branco sem educação nos EUA corre menor risco de morrer por disparos do que outro negro com estudos", acrescentou.

No caso do Brasil, embora as taxas de mortalidade por armas de fogo reflitam a composição racial, a maior diferença é explicada pela educação.

De acordo com o professor da UofT, a maior parte destas mortes "são evitáveis".

Os pesquisadores analisaram as populações com as taxas mais baixas de mortalidade por violência com armas de fogo de cada país e chegaram à conclusão que, aplicando os sistemas corretos, 1,8 milhão de mortes ocorridas entre 1990 e 2015 poderiam ter sido evitadas.

"Não estamos pedindo que os Estados Unidos se transformem no Canadá, mas, se fossem mantidos os níveis de violência com armas de fogo de lugares como Connecticut ou Vermont (ambos nos EUA), uma grande quantidade de mortes poderia ter sido evitada", disse Jha.

"Simplesmente, aplicando em nível nacional o que funciona em cada um dos países, teriam sido evitadas 1,8 milhão de mortes", afirmou.

Por países, os dados apontam que entre 1990 e 2015 o Brasil foi o que teve mais mortes por arma de fogo entre os quatro, com 855 mil, seguido por EUA com 851 mil, Colômbia com 494 mil e México com 272 mil.

Como meio termo, a mortalidade com arma de fogo representou mais da metade do risco de morte prematura para homens jovens nos quatro países, com o México (12,5% do risco) e a Colômbia (58%) nos seus extremos.

Na opinião de Jha, "é assombroso que ninguém tenha realizado este estudo antes. Estas estatísticas foram públicas há muito tempo mas, especialmente nos EUA, as pessoas ficaram menos sensibilizadas diante das estatísticas da violência com armas de fogo".

Por Julio César Rivas