EFEPilar Martín. Madri

A escritora Nélida Piñón, está lançando na Espanha, o livro "Um dia chegarei a Sagres", publicado no início deste ano, em que viaja à memória de Portugal e em que acerta contas com o passado, que afirma ser fundamental conhecer, "para corrigir a visão" que se tem dele.

Rodeada por Pilara e Susi, suas duas pequenas cadelas, a autora brasileira concedeu entrevista a um grupo de jornalistas na casa em que vive, em Madri. Na conversa, Piñón comentou como foram as primeiras impressões sobre a obra, em conversa com a amiga e agente literária, Carmen Balcells.

"Quando contei para ela, me disse que era uma história muito violenta. Mas, eu disse que sou mulher e que poderia ser lírica e violenta", disse.

"Um dia chegarei a Sagres", segundo a própria escritora, é um romance marcado pelos ventos que guiaram os grandes navegantes que tornaram Portugal uma "nação" e que estão presentes na vida do protagonista, Mateus, um camponês que é filho de uma prostituta acusada de bruxaria e que é criado pelo avô, Vicente, em história que se passa no século 19.

Uma espécie de guia de vida e espiritual, o personagem, ao morrer, inicia uma busca atrás da utopia de uma vida melhor, que deixaram impressa na história o navegador Vasco da Gama e o autor Luis de Camões, dois personagens muito presentes no livro, em que está manifestada a paixão e o conhecimento de Piñón sobre Portugal.

"Eu tinha essa história na minha cabeça, porque a humanidade é como se fosse minha vizinha. A exploro desde pequena", disse a autora, vencedora do Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, em 2015, e do Prêmio Jabuti de Crônica, em 2010.

A autora brasileira, que também tem cidadania espanhola, disse não entender porque é preciso pedir perdão pelo que aconteceu no passado.

"É preciso conhecer profundamente o que aconteceu para retificar nossa visão. A história é inapagável, e é preciso conhecê-la mais. Deveriam existir mais historiadores. Hoje, as pessoas não estudam a história como se deveria, para estabelecer uma analogia com o presente", afirmou Piñón.

Por isso, acrescentou que sua maneira de entender a literatura a faz afirmar que não se trata "de informação", mas sim de "mistérios", que o escritor "pode preencher".

Tanto é assim, que quando fez uma viagem para Portugal para conhecer os cenários apresentados no romance, ao ver um tronco de árvore, Piñón conta que pensava "no sangue que havia sido derramado" ali.

São lugares pelos quais passa Mateus, um personagem que faz com que a autora se coloque na pele de um homem (como já havia feito em "A República dos Sonhos"), com a sensibilidade e a verdade que uma mulher pode fazer.

"Acho que essa história não poderia ter sido contada com voz feminina, porque uma mulher, no século 19, não poderia ser uma peregrina, a mulher, nessa época, estava destinada ao refúgio da casa", disse.

Nessa imersão na mente masculina, Piñón aprofunda também o aspecto carnal e a espiritualidade deste camponês que busca a utopia, um território que não é exclusivo para os ricos.

"Como pode ser apresentada a realidade de um personagem morto, se não observo o sexo dele?", afirma.

Sobre a nacionalidade espanhola que, recentemente foi concedida a ela, Piñón confessou que nunca teria coragem de pedi-la, mas que o embaixador do país europeu no Brasil, Fernando García Casas, foi quem disse que o governo gostaria de oferecer.

"Eu tinha direito, porque meus quatro avôs eram galegos (da região da Galícia, na Espanha). Meu avô Daniel chegou ao Brasil com 14 anos. Agora, é como se eu voltasse a dar vida aos meus mortos", afirmou. EFE