EFECannes (França)

O filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", que estreou em Cannes na segunda-feira na seção "Um Certo Olhar", é uma dura denúncia do patriarcado com a qual o cineasta Karim Aïnouz quis retratar e homenagear as mulheres invisíveis no Brasil.

O roteiro narra a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), que é ambientada no Rio de Janeiro de 1950, onde cada uma luta por seus sonhos apesar de terem um pai opressor.

As irmãs são cúmplices e inseparáveis. A mais nova, Eurídice, é uma ótima pianista. Já Guida sonha em se casar e construir uma família.

Aos 18 anos, a mais velha foge de casa com o namorado e retorna seis meses depois, grávida e sozinha, e acaba sendo expulsa de casa pelo pai. Neste momento, as irmãs se separam e passam suas vidas tentando se reencontrar.

O filme é baseado no romance homônimo de Martha Batalha, mas incorpora elementos autobiográficos do cineasta e das mulheres com as quais foi criado.

No elenco estão Gregógio Duvivier, Bárbara Santos, Flávia Gusmão, Antônio Fonseca, entre outros. Além disso, há uma participação especial de Fernanda Montenegro.

"É uma homenagem a uma geração de mulheres que estão morrendo, que têm entre 80 e 90 anos", disse o diretor nesta terça-feira à Agência Efe após a estreia do filme na seção "Um Certo Olhar", a segunda mais importante do Festival de Cannes.

Aïnouz retrata um Brasil no qual uma mãe solteira não pode viajar com o filho para fora do país sem a autorização do pai e de uma época em que as mulheres eram pouco mais do que a sombra do marido. Segundo o diretor, esse cenário ainda é muito latente no Brasil.

"Acho que houve mudanças, que houve um momento no Brasil no qual as coisas foram bastante diferentes, mas ultimamente, com o novo governo, embora acredito que tenha ocorrido em todas partes, há uma espécie de carta branca para o comportamento intolerante", lamentou.

Aïnouz classificou esse momento como "uma crise do patriarcado" provocada por homens que se sentem ameaçados pelo atual empoderamento das mulheres. O diretor comentou que se inspirou nas mulheres de sua família e dessa geração que não têm voz.

Com esse filme, Karim Aïnouz chega a Cannes pela terceira vez, após ter exibido "Madame Satã", em 2002, e "O Abismo Prateado", em 2011.

"É um lugar muito familiar e, ao mesmo tempo, muito excitante. Gosto de voltar porque o cinema na França é como um esporte nacional", concluiu, emocionado.

Já as protagonistas do longa-metragem estrearam em Cannes nesta edição do festival.

"Ainda estamos assimilando tudo o que vivemos", explicou Julia, enquanto Carol afirmou que, embora haja muitas Eurídices atualmente, "não é uma questão exclusivamente brasileira, mas um fenômeno conservador global", disse.