EFEBuenos Aires

Desde a cobertura de "panelaços" até o concurso "Miss Bumbum", as câmeras do grupo de fotógrafos argentinos M.A.f.I.A escapam do camarote reservado para a imprensa e se metem - e se intrometem - em eventos sociais para focar no que assistem e no que acontece ao redor.

"Nós não estamos atrás das notícias, estamos atrás das pessoas", explicou um dos integrantes do Movimento Argentino de Fotógrafxs Independentes Autoconvocadxs (M.A.f.I.A.), em um estúdio invadido por câmeras, plantas e madeiras em Buenos Aires.

Sua ideia é "incidir na realidade através da fotografia com um olhar que seja respeitoso sobre as pessoas e mostrar a luta dos que vão contra os poderes mais fortes", concordam vários de seus companheiros do M.A.f.I.A.

Os membros do grupo - Nahuel Domínguez, Ceci Estalles, Lina Etchesuri, Luciana Leiras, Mariano Militello, Gonzalo Pardo, Juan Francisco Sánchez, Florença Trincheri e Nicolás Villalobos - preferem não assinar individualmente, mas como coletivo.

Os caminhos destes nove fotógrafos se cruzaram em 2012, quando uma colega foi ameaçada por postar no Facebook fotos que tirou em um "panelaço" contra o governo argentino nas quais retratava os participantes.

"O que a gente fez foi se reunir em torno de uma ameaça e dizer 'não vamos deixar de fazer fotografia por isto', mas vamos tomar as medidas para que não nos ameacem", relatou um integrante do M.A.f.I.A. explicando que as fotos "eram simplesmente retratos, sem nada agressivo".

A partir desse episódio, estes fotógrafos, procedentes dos setores do fotojornalismo e da moda, entre outros, se organizaram via redes sociais para cobrir o seguinte "panelaço" opositor de forma coletiva.

A maioria não tinha se visto até esse dia, quando saíram às ruas divididos em grupos para captar imagens do protesto com o acordo de não assinar individualmente seu trabalho.

"Apesar de esse momento ter mais a ver com o resguardo de nossas pessoas, a assinatura depois começou a ser a coluna vertebral do projeto", comentou um dos membros do M.A.f.I.A., detalhando que esta decisão tem a ver com "tirar" o autor do meio "em uma atividade tão individualista, como é a fotografia".

Este coletivo do Movimento Argentino de Fotógrafxs Independentes Autoconvocadxs tem quase 150 coberturas publicadas nas redes sociais, seu principal meio de divulgação e onde contam com 70 mil seguidores.

O grupo explica que o termo "independentes" faz referência ao fato de não serem contratados de nenhum poder econômico ou político, enquanto "Autoconvocadxs" evoca, de forma irônica, as convocações das mobilizações supostamente espontâneas.

Além de ter sido a primeira cobertura em grupo, os "panelaços", como se conhece na Argentina as manifestações contra o governo, são o ponto forte de seu trabalho.

"Temos uma forma de olhar para as classes altas que não é a usual porque elas sempre são cuidadas pelos meios que, em geral, são seus", afirmou outro dos membros do M.A.f.I.A.

O grupo exemplifica que se há um despejo em um bairro, a conjuntura dos grandes meios se centra na "polícia tirar as famílias ou não", mas não no dia a dia dessas pessoas e no por que atravessam essa situação.

"Os grandes meios não dizem isso abertamente, mas não têm o mesmo olhar para um argentino que para um boliviano, por exemplo; há uma estigmatização constante de certas minorias", afirmam.

Na memória do grupo está também a cobertura de uma repressão policial em um hospital neuropsiquiátrico de Buenos Aires na qual um deles foi agredido pelos agentes e suas fotos passaram a fazer parte do projeto judicial.