EFEBuenos Aires

Todos os anos, de junho a dezembro, centenas de baleias fazem do litoral da Península Valdés, na Patagônia argentina, seu lar: lá elas acasalam, dão à luz, socializam e fazem de seus saltos um espetáculo único da natureza. Agora, após a paralisação no turismo de 2020, estas indiscutíveis "estrelas" estão mais uma vez brilhando diante de um público que invariavelmente fica boquiaberto.

Com Puerto Pirámides - a única cidade da península - como ponto de partida, no Golfo Nuevo, várias empresas fazem excursões de barco que permitem avistar de perto as baleias-francas-austrais, enormes, curiosas e dóceis, que escolhem esta área da província de Chubut como seu principal local de reprodução e parto.

"Muitas pessoas nos perguntam: por que as baleias vêm aqui para ter seus filhotes e acasalar, por que esta área é tão especial? Cheguei à conclusão pessoal de que a Península Valdés, por ser muito estreita, acaba sendo praticamente uma ilha, e a grande presença de pinguins, elefantes marinhos, leões marinhos, baleias e golfinhos é parte do mesmo que existe em ilhas de difícil acesso", disse Ricardo Daniel Orri, conhecido como "Pinino", à Agência Efe.

Este "capitão baleeiro", especialista naval em resgate e mergulho, foi um dos pioneiros destes avistamentos turísticos na Argentina nos anos 70, quando um grupo de pessoas - que vieram de grandes cidades e sem essência marítima, conforme ele lembrou - fez do mar sua vida, apaixonou-se pelas baleias e começou a levar pequenos grupos de visitantes em pequenos barcos para admirá-las.

Mais de quatro décadas depois, a atividade foi regulamentada e supervisionada, com cuidados ambientais rigorosos e avanços na pesquisa científica. E os turistas são milhares: "depois de tantos anos de trabalho respeitoso com os animais, hoje toda a vida selvagem nesta área toma a presença de pessoas e barcos como algo que faz parte da natureza", disse Pinino.

"Esta experiência é tão, mas tão forte, que de certa forma nos transforma, (...) nos sensibiliza e nos permite compreender muito melhor a importância de cuidar de nossos recursos, nosso meio ambiente, as espécies. Somos capitães baleeiros modernos", acrescentou, ressaltando que ele e outros companheiros conduzem barcos para admirar as baleias, não para capturá-las.

EXPERIÊNCIA ÚNICA.

Após embarcarem em Puerto Pirámides - a cerca de 90 quilômetros de Puerto Madryn - os turistas, que devem primeiro reservar a visita, começam uma excursão de cerca de uma hora e meia com um guia que os ajuda a interpretar o que veem.

"Após alguns minutos temos os primeiros avistamentos a olho nu, e temos uma alta porcentagem de interação com as baleias", afirmou Miguel Bottazzi, também capitão e guia, filho de Tito Bottazzi (1952-2013), um dos pioneiros.

Além de poder tirar fotos da cauda de uma baleia ou de um salto, uma conexão única é alcançada com animais com grande inteligência emocional.

"Às vezes, este enorme animal passa debaixo do barco, olha para você ou coloca sua cabeça fora da água e fica a um metro de distância das pessoas", contou.

"Você vê os grupos de acasalamento, recém-nascidos, grupos de cópula, o que é um espetáculo incrível: uma fêmea e vários machos em namoro... e estamos falando de às vezes mais de 10 machos e uma fêmea. Em outras palavras, eles dão um show de barbatanas, caudas... este namoro dura horas", acrescentou.

NORMALIDADE.

Após um 2020 sem turistas, devido à pandemia do coronavírus, esta temporada "superou em muito" as expectativas, segundo Pinino, devido ao grande afluxo do turismo nacional, e as perspectivas são "muito promissoras" para os próximos meses.

Com as viagens dentro da Argentina agora restauradas, a partir de sexta-feira as fronteiras começarão a abrir novamente após um ano e meio fechadas para o turismo estrangeiro. Uma normalização que ocorre em "um ano de pico para a população" de baleias, disse Bottazzi.

De acordo com o último censo realizado pelo Laboratório de Mamíferos Marinhos do Centro de Estudos de Sistemas Marinhos, 1.138 baleias foram avistadas na costa da Península Valdés, declarada Patrimônio da Humanidade em 1999. EFE