EFEDarra Adam Khel (Paquistão)

A vida em Darra Adam Khel há décadas gira em torno da fabricação de réplicas de fuzis AK-47 e rifles de assalto M16, algo que está mudando lentamente, como simboliza a primeira biblioteca fundada nesta cidade do noroeste tribal do Paquistão.

Na rua principal do bazar Darra Adam Khel ressonam os martelos de armeiros e inclusive disparos, mas a apenas 300 metros, o silêncio na biblioteca só é perturbado pelo som dos ventiladores.

Cinco jovens e um adulto leem rodeados de prateleiras onde descansam 3,5 mil livros de história, religião ou romances, a grande maioria em urdu, enquanto Raj Mohammed observa com satisfação.

"As pessoas hoje precisam de mais livros do que armas", diz à Agência Efe, Mohammed, fundador da primeira biblioteca de Darra Adam Khel, cidade de 10 mil habitantes e lendária pelas suas armas durante um século.

Mohammed, 32 anos e pai de três filhos, estudou urdu na universidade da cidade de Peshawar, a 45 quilômetros de Darra, depois realizou dois mestrados e agora começou um doutorado.

Sua paixão pela leitura começou na faculdade, enquanto seu desinteresse por armas vem de longe. Quando jovem, ele decidiu não herdar o trabalho de armeiro de seu pai e do avô.

Então, em agosto do ano passado, ele decidiu abrir uma biblioteca em um pequeno espaço situado sobre a loja de armas de seu pai com doações de livros que conseguiu através do Facebook.

"Quando comecei, as pessoas riam de mim", diz o bibliotecário, que é professor de urdu em um centro educacional local.

No entanto, em poucos meses, a biblioteca chegou a 240 membros em uma área onde apenas 35% da população consegue ler, de acordo com Mohammed.

Entre os membros há também cerca de 30 mulheres, embora não visitem o centro pelo conservadorismo da área e os livros sejam levados para casa por parentes do sexo masculino.

Após o sucesso inicial, Mohammed transferiu em abril a biblioteca para um novo edifício, rodeado de campos de futebol, quadra de basquete e balanços para crianças, um complexo construído com a ajuda do Exército, de duas minas de carvão da região e de doações das pessoas.

Uma novidade em uma região duramente atingida pela violência extremista e que esteve sob o domínio do Talibã até 2010, quando o Exército recuperou o controle com operações militares.

Mesmo assim, naquele mesmo ano, um ataque suicida em uma mesquita deixou 66 mortos e 80 feridos.

Um sobrinho de Mohammed também morreu em um ataque.

"Quero que a nova geração inicie suas vidas com livros, seja educada em vez de continuar com o trabalho de seus pais", afirmou Mohammed.

E enfatiza que "as pessoas das áreas tribais agora precisam de livros, querem educação, querem paz".

Na verdade, o comércio de armas está em declínio, em parte porque as zonas tribais foram integradas com o resto do país em 2017 e está expandindo a autoridade da Constituição e das leis nestas áreas inquietas desde os tempos da colonização britânica.

Um dos afetados é Sher Bad Shah, de 78 anos, que já tem mais de meio século fabricando réplicas de rifles M16 por 30 mil rupias (US$ 187) e AK-47 por 10 mil rupias (US$ 62).

"Antes eu tocava o negócio sem nenhum tipo de licença e agora tive que solicitar uma e estou esperando. Além disso, os clientes agora também precisam possuir licença de armas e não é tão fácil conseguir. O negócio caiu", afirmou o armeiro.

A situação de Gulab Khan, 40 anos e filho e neto de armeiros, é similar e decidiu que seus dois filhos estudem na busca de um futuro melhor, mas se não "tiverem sucesso" com os livros, herdarão seu trabalho.

"Faço cópias de Zigana, Beretta e Glock por entre 7 mil e 10 mil rupias (entre US$ 43 e US$ 62). As minhas pistolas são realmente boas. Garanto que funcionam como as originais", afirma, com orgulho.

Para Asim Khan, estudante de 19 anos, o fato do negócio das armas estar em declínio e que mais pais enviem seus filhos para a escola, representa uma mudança social.

"Antes, os pais levavam seus filhos para oficinas, mesmo depois de cinco anos, para ensiná-los a fazer armas, mas agora os mandam para a escola", afirma o jovem, que aspira ser programador de software e vai à biblioteca em busca de livros sobre ciência.

A biblioteca de Mohammed ganhou popularidade depois de aparecer na mídia e no último mês inúmeras pessoas doaram 550 livros.

Alguns vieram do exterior, como os dois livros enviados pela escritora nova-iorquina Emily H. Butler ou os US$ 40 doados doou um bibliotecário também de Nova York.

Mohammed foi indicado ao prêmio da organização americana "Judith's Reading Room's", que concede US$ 3 mil a pessoas que "inspiram o amor pela leitura".

Se conquistar o prêmio, cujo resultado será conhecido em poucas semanas, investirá os fundos em mais livros, assegura.

"Os livros trarão a paz", finalizou.

Jaime León.