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Novos casos de vídeos sexuais gravados e divulgados sem consentimento voltaram a ressaltar a sensação de falta de defesa sofrida pelas sul-coreanas diariamente, o machismo a respeito do fenômeno e o escasso efeito que estão tendo as medidas institucionais.

No começo de março explodiu um dos maiores escândalos que sacudiu a indústria musical sul-coreana, no qual se cruzam supostas redes de prostituição e o suposto uso de drogas para abusar sexualmente de mulheres em clubes do famoso, e rico, distrito de Gangnam em Seul.

A investigação revelou também um chat no qual vários cantores de K-Pop, entre eles a superestrela Seungri, do grupo Bigbang, epicentro do caso, compartilharam vídeos e fotos sexuais tiradas sem o consentimento das mulheres que apareciam neles.

Quase ao mesmo tempo, a polícia deteve quatro indivíduos acusados de ocultar câmeras em dezenas de motéis e montar um site pago (que chegou a somar 4.000 associados) através do qual foi transmitida ao vivo a intimidade de cerca de 1.600 pessoas.

As câmeras sem fio foram escondidas em suportes para secadores de cabelos, receptores de televisão a cabo e tomadas, como explicou à Agência Efe a inspetora Hong Hye-Jeong, da unidade de violência sexual cibernética da Agência Nacional de Polícia (NPA).

Hong também confirma que em 2018 aconteceu outro caso similar em motéis de Seul, embora nessa ocasião o suspeito não tenha compartilhado nada do material gravado na internet.

Para as sul-coreanas, não é nenhuma surpresa: desde o ano passado, milhares delas se lançaram na rua para denunciar que o "pornô de vingança" e o "molka" - fotos e vídeos sexuais ou íntimos gravados e distribuídos sem consentimento - são há muito tempo um problema grave na Coreia do Sul.

Nestas manifestações, milhares de mulheres mostraram seu esgotamento em relação à possibilidade que sejam gravadas quando praticam sexo, vão ao banheiro ou trocam de roupa em casa (há casos nos quais as vítimas foram gravadas dentro de seus apartamentos com o uso de potentes teleobjetivas).

No entanto, não parecem estar surtindo efeito os apelos do governo sul-coreano - por causa do aumento de denúncias - para investigar mais a fundo os casos de "cibercriminalidade/delinquência sexual", endurecer as penas para os que gravam e distribuem material, ou conscientizar sobre o problema e o atentado contra a intimidade que isto envolve.

Hong afirmou que "é tecnicamente impossível" prevenir cada caso de câmeras escondidas, mas assegurou que a NPA desenvolveu um novo sistema que detecta os sinais sem fio a uma distância considerável.

"Já que não podemos entrar em cada quarto de cada motel, criamos um sistema para detectar sinais a partir dos corredores das unidades", explicou sobre esta tecnologia que será distribuída em breve a unidades policiais em todo o país.

Quanto a fechar sites que hospedam "molka", Hong lembrou que esse fechamento é complicado porque na maioria das vezes o servidor fica no exterior.

Mas, além dos equipamentos tecnológicos que permitem combater o fenômeno, diferentes editorialistas sul-coreanas assinalaram nas últimas semanas a cultura machista, misógina e de "coisificação" sexual alimentada pela cultura do "molka", exposta no "caso Seungri".

Basta ler o conteúdo dos chats revelados na investigação, onde além de trocar vídeos se fala em tom jocoso de dar drogas a mulheres e estuprá-las, ou as reações de alguns internautas ao escândalo para ver que muitos sul-coreanos não veem nada de errado em gravar, ver e compartilhar "molka".

"Antes de mais nada, as pessoas não deveriam gravar vídeos sexuais ilegais e compartilhá-los com outros, e também não deveriam poder ter acesso a eles e ter desejo de vê-los", comentou Lee Hyo-Reno, diretora da Cyber Lion (organização que dá apoio a vítimas destes crimes), considerando que as medidas anunciadas desde 2017 pelo governo mal deram frutos.

"Precisamos combater este assunto a partir de diferentes planos e a solução, por enquanto, se limita a regular a parcela 'online', mas devemos encará-lo regulamentando também o mundo real, de maneira que todos - governo, setor privado, sociedade civil - devam estar envolvidos para solucioná-lo", acrescentou Lee.

Andrés Sánchez Braun.