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Diante da segunda onda da pandemia de Covid-19 que a Europa está vivendo, um grupo de 80 cientistas internacionais alertou nesta quarta-feira para os riscos do "ressurgimento do interesse" pela teoria da imunidade de rebanho, que segundo eles é uma "falácia perigosa que não foi comprovada por evidências científicas".

Em uma carta aberta publicada pela revista "The Lancet", os especialistas explicaram que a estratégia, que consiste em permitir que o vírus se espalhe de forma controlada entre os setores de baixo risco da população para imunizá-los e proteger os mais vulneráveis, eleva significativamente os riscos de mortalidade entre todos os cidadãos, além de comprometer a força de trabalho disponível e sobrecarregar os sistemas de saúde e seus profissionais.

Por outro lado, esta abordagem também pode "aumentar ainda mais as desigualdades socioeconômicas e as discriminações estruturais já agravadas pela pandemia", entre outras consequências negativas para a sociedade e para a economia.

Nesse sentido, os cientistas defenderam que qualquer estratégia para o gerenciamento da pandemia que se baseie em imunidade adquirida de forma natural é "falha".

"Não há evidências de imunidade duradoura contra o Sars-CoV-2 após uma infecção natural, e a transmissão endêmica iniciada representaria um risco para as populações vulneráveis por um futuro indefinido. Essa estratégia não acabaria com a pandemia de Covid-19, mas resultaria em epidemias recorrentes, como foi o caso de várias doenças infecciosas antes da criação das vacinas", acrescenta o texto.

A carta, assinada por especialistas de diversas áreas da saúde e até mesmo sociologia, também insiste na necessidade de comunicar de forma mais clara os riscos trazidos pela doença e de implementar estratégias efetivas para combater o novo coronavírus, mas sem submeter grandes parcelas da população a períodos prolongados de isolamento social, medida considerada "altamente antiética",

No início da pandemia, muitos países proibiram seus cidadãos de saírem de casa durante períodos de 'lockdown', o que foi essencial para conter o avanço do vírus e reduzir as taxas de mortalidade da Covid-19, mas a medida também causou problemas físicos e de saúde mental, além dos danos à economia, consequências que impactaram mais fortemente as nações que impuseram restrições parciais por um tempo mais longo.

Tudo isso, segundo os cientistas, causou, "compreensivelmente, uma desmoralização generalizada e uma diminuição da confiança".

Agora, diante desta segunda onda da pandemia, é preciso implementar de forma ampla medidas que sejam capazes de "suprimir e controlar" a transmissão do vírus de forma eficaz, e que venham acompanhadas por programas de suporte financeiro e social que encoragem a comunidade a reagir e que combatam as desigualdades.

"Restrições contínuas provavelmente serão necessárias a curto prazo, para reduzir a transmissão e para consertar sistemas ineficazes de resposta à pandemia, a fim de evitar lockdowns futuros. O objetivo dessas restrições é suprimir com eficácia as infecções por Sars-CoV-2 a níveis baixos que permitam a detecção rápida de surtos localizados e uma resposta rápida por meio de sistemas eficientes e abrangentes de localização, teste, rastreamento, isolamento e suporte para que a vida possa voltar praticamente ao normal", afirma o texto.

Além disso, os autores da carta defenderam que é preciso evitar incertezas a longo prazo e que a proteção das economias "está intimamente ligada ao controle da Covid-19 e à preservação da força de trabalho.

Com base nesses princípios, os especialistas citaram como exemplos na gestão da crise causada pelo novo coronavírus países como Japão, Vietnã e Nova Zelândia, que provaram que "respostas robustas de saúde pública podem controlar a transmissão, permitindo que a vida volte praticamente ao normal".

"A evidência é muito clara: controlar os contágios comunitários da Covid-19 é a melhor forma de proteger nossas sociedades e economias até que vacinas e métodos terapêuticos efetivos cheguem nos próximos meses. Não podemos arcar com as consequências de distrações que comprometem uma resposta efetiva; é essencial agir de forma urgente e com base em evidências", conclui o texto.