EFECarlos García. Lisboa

A empresa Real FEVR, sediada em Lisboa, se tornou, em pouco tempo, referência mundial para colecionadores virtuais que usam criptmoedas para comprar envelopes com vídeos das melhores jogadas e gols de estrelas do futebol, momentos únicos pelos quais são pagas fortunas.

O criador da ideia é Fred Antunes, um português que revelou à Agência Efe que, no primeiro mês de atividades, a empresa faturou 1,015 milhão de euros com a venda desses ativos virtuais.

Após a inauguração, em 12 de agosto, o marketplace da plataforma Real FEVR registrou volume de transações de 3.384.420 euros, já que o dono do ativo pode novamente colocá-lo à venda no site.

O mais caro de todos até o momento foi um gol que Bruno Fernandes, do Manchester United, marcou contra o Portimonense quando jogava pelo Sporting. Um usuário gastou 70 euros em envelopes e revendeu o vídeo do meia português por 76 mil euros.

Um vídeo de uma defesa de Iker Casillas na temporada 2016-2017, quando o goleiro defendia o Porto, chegou a ser adquirido por 22 mil euros, relatou Antunes.

Para comprar os ativos, o usuário precisa usar a moeda oficial pela criptomoeda da plataforma, chamada FEVR token.

COMO SURGIU.

A empresa foi criada em 2015 para exportar dos Estados Unidos o negócio da "Fantasy League", que na América representa um volume de negócios de US$ 18 bilhões, explicou o CEO.

Como startup, o objetivo da empresa na Europa era replicar esse formato. No entanto, como modelo de negócio "não é muito bom", pois não existe na Europa, como nos EUA, uma cultura de pagar para jogar o Fantasy, e esse era o problema.

A reinvenção veio no ano passado, e a empresa começou a trabalhar com a tecnologia blockchain para explorar ativos digitais, que têm "muito potencial para evoluir e crescer, com um modelo de negócio mais poderoso do que o Fantasy", opinou Antunes.

GOLS E DEFESAS, OS ATIVOS NFT.

A chave são os NFTs, sigla em inglês para tokens não fungíveis, que são ativos digitais que "nos permitem criar qualquer coisa que consideramos ter valor".

"Procuramos os momentos únicos e fantásticos que o futebol tem e convertemos os gols dos jogadores em momentos históricos que as pessoas podem colecionar", exemplificou o empresário.

Quando o usuário abre o envelope digital na plataforma Real FEVR, ele recebe um vídeo, com jogadas de Cristiano Ronaldo, Falcão, Hulk ou James Rodrigues, entre outros. São "momentos únicos" de mais de 600 jogadores.

No primeiro lançamento de envelopes digitais no mês passado, uma das jogadas de Bruno Fernandes foi "revendida" por cerca de US$ 90 mil.

OS ENVELOPES DIGITAIS.

Cada envelope tem três tipos diferentes: básico, raro e super raro. Os preços são diferentes, e o super raro tem mais vídeos do que o básico.

No total, em quatro minutos, quando a plataforma foi lançada em 12 de agosto, foram vendidos envelopes no valor de um milhão de euros. Em 26 horas, o negócio atingiu US$ 1,6 milhão: "Estava completamente esgotado", comentou.

A estrutura do negócio se baseia em dois elementos: os envelopes que um usuário pode comprar e o próprio mercado do portal onde os utilizadores podem vender os vídeos que obtiveram, já que cada usuário pode exibir a sua própria coleção com o preço de cada vídeo.

"Cada pessoa decide o valor que coloca em cada momento, em cada vídeo", detalhou Antunes. A vantagem é que, ao contrário das figurinhas tradicionais, que requerem um ponto de venda físico, os NFTs "podem ser vendidos ao mesmo tempo em todo o mundo sem ter uma distribuição física local".

VÍDEOS ÚNICOS COM PROPRIEDADE INTELECTUAL.

Cada vídeo é único, não há repetições, ninguém mais pode tê-los, pois "os vídeos são oficiais e têm direitos autorais". No caso da jogada de Bruno Fernandes, o usuário comprou três envelopes básicos e um raro por um total de 70 euros.

Em termos de privacidade, a empresa não conhece os dados dos usuários: "Não, não conhecemos, não temos forma de saber", disse o representante da plataforma.

Devido ao Regulamento Geral de Proteção de Dados, não é possível acessar os dados dos utilizadores. A plataforma toda funciona de forma privada e cada usuário tem a sua própria coleção.

Neste momento, Europa e Brasil são responsáveis pela maior parte do tráfego no portal, que tem uma média de 2 milhões de visitas por dia.

ONDE ESTÁ O NEGÓCIO.

"Ganhamos sempre uma comissão por cada transação e a empresa que detém os direitos sobre os vídeos recebe um royalty a cada vez que o vídeo é vendido", explicou.

Desta forma, a Real FEVR ganha 2% de comissão por cada revenda do vídeo e a empresa que detém os direitos recebe outros 2% em taxas.

No primeiro mês, foram arrecadados US$ 1,6 milhão em vendas de envelopes, mais os US$ 4 milhões que o mercado da plataforma movimentou.

O próximo lançamento, no final de setembro, será o primeiro gol de Cristiano Ronaldo pelo Sporting. "Apenas uma pessoa em todo o mundo terá o primeiro gol dele pelo Sporting".

GOLES DE CRISTIANO RONALDO.

Bruno Fernandes, Iker Casillas, Hulk e James Rodrigues estão entre os mais procurados e o preço médio dos gols de Cristiano é de cerca de 50 mil euros cada. Uma defesa de Iker Casillas já foi vendida por US$ 26 mil.

"Todas as semanas entregamos coisas novas para a nossa comunidade", comentou o criador. O que é relevante para o negócio não é de onde é a competição, mas sim os jogadores, que são as estrelas do momento artístico.

A empresa tem "os direitos dos últimos 22 anos do Campeonato Português" e agora pretende ter vídeos de mais gols de outras competições. Antunes frisa que a plataforma possui a "licença de exclusividade para criar ativos digitais NFTs".

O vídeo pode ser exibido na televisão, mas no processo de monetização e impressão dos NFT "somos nós que temos a exclusividade", disse Antunes.

FEVR TOKEN.

Os usuários devem ter criptomoedas FEVR token. Em outras palavras, para operar na plataforma, primeiro é preciso comprar a moeda da plataforma para operar.

Com esta moeda, é possível comprar os vídeos, que podem ser revendidos nas criptomoedas BNB ou Ether.

Ao todo, já foram vendidas 76 mil criptomoedas desde 12 de agosto e em breve serão lançadas mais 30 mil, antecipou Fred Antunes.

REAL FEVR.

A empresa portuguesa teve 40 investidores desde janeiro deste ano, quando lançou uma oferta de US$ 2,2 milhões. No final do ano, será feita uma nova rodada para aumentar o valor da empresa para US$ 200 milhões e, assim, 'continuar a crescer".

"Pode parecer muito, mas em comparação com os nossos concorrentes diretos nos Estados Unidos estamos muito abaixo, pois existe um cujo valor é de US$ 7,2 bilhões", comentou.

O objetivo é "chegar a acordos com outras competições de futebol e também chegar a outros esportes". Esta temporada começará com outras ligas de futebol, disse Antunes.

Atualmente, a empresa tem 52 pessoas, e todas podem trabalhar remotamente. A equipe tem funcionários de dez países, incluindo Brasil, Espanha e Estados Unidos, mas a maioria é de Portugal.