EFEIsadora Camargo, Pamplona (Espanha)

Um clima de "luto" e silêncio preencheu as ruas de Pamplona, capital da comunidade autônoma de Navarra, no norte da Espanha, onde os resultados das eleições gerais realizadas ontem no país foram recebidos com surpresa devido ao expressivo crescimento da ultradireita, representada pelo partido Vox, que conseguiu 52 cadeiras no Parlamento, mais do que o dobro do que obteve no pleito anterior, em abril (24).

"Vivemos um período tenebroso. Me sinto em um funeral, de luto com o que acontece na política espanhola. Mas, no fundo, já esperava que a direita e a esquerda não estariam em acordo, e o povo seria prejudicado, porque a verdade é que os políticos que conseguiram mais cadeiras não estão preocupados com a vontade da maioria", contou à Agência Efe o aposentado Ángel Juiz.

Para ele, o aumento significativo do partido da ultradireita representa um "perigo a migrantes, aposentados e à saúde do país".

Como Juiz, a comunidade brasileira residente na capital navarra está com medo, especialmente por causa dos discursos xenofóbicos de Santiago Abascal, líder do Vox, que projetou sua campanha com foco em um nacionalismo extremista e um desejo de "purificar" a Espanha dos estrangeiros através de projetos que propõem uma maior severidade para entrada e residência no país ibérico.

"Tenho muito medo do que vem por aí, entre atos xenofóbicos e precarização das condições laborais dadas aos migrantes", comentou à Efe a estudante brasileira Emilia Tomazelli.

Em Navarra foram eleitos cinco deputados para o Parlamento nacional. Eram esperados mais de 500 mil eleitores, mas 485,5 mil acabaram votando.

A brasileira Monique Goudinho, que vive em Pamplona há dez anos, ficou muito preocupada com a ascensão da ultradireita, porque considera que partidos como o Vox levantam a bandeira de que "o estrangeiro roubou os direitos dos nativos espanhois".

"Fiquei muito preocupada com a ascensão do Vox, porque ele carrega uma bandera xenofóbica muito forte, já deixou claro sua perseguição contra estrangeiros e a ideia de que "roubamos" direitos de cidadãos espanhóis. Além de toda a política anticonstitucional que vem como um retroceso de direitos adquiridos. Como exemplo, a política de proteção contra a violência de gênero", disse a bióloga, que trabalha em Pamplona como vendedora, porque ainda não teve seu diploma validado na Espanha.

"Infelizmente é uma corrente que vem aumentando em muitos países, como infelizmente no Brasil, e eu entendo que é o resultado do desengano contra a forma de fazer politica dos outros partidos que estão no poder", acrescentou.

O comparecimento às urnas dos eleitores cadastrados em Pamplona, maior colégio eleitoral de Navarra, onde tradicionalmente a esquerda prevalece, foi de 69,05% (105.649 mil), cerca de 5% a menos do que em abril. O Vox teve 4,46% dos votos na capital navarra.

Para o venezuelano Mikel Méndez, que vive há seis anos em Pamplona, "os elementos sociais resultantes das eleições, como o aumento da direita ou o número de abstenções, podem refletir em aflição social e violência contra os estrangeiros, porque começam a se sentir apoiados".

Na cidade de forte tradição universitária, de cerca de 200 mil habitantes, as fortes chuvas e baixas temperaturas se misturaram com a sensação de "não querer falar sobre política e eleições", como disse uma garçonete que atendia a um cliente em um restaurante na tarde desta segunda-feira.

Entre as razões do silêncio optado por essa garçonete, Irugnen Vides, estão a "confusão gerada pela falta de entendimento entre os partidos" e a "divisão em que o país se encontra entre direita e esquerda, mergulhada em ondas nacionalistas".

No restaurante em questão, embora o televisor estivesse ligada em um canal de notícias sobre os resultados eleitorais, as mais de 20 pessoas presentes não conversavam sobre o tema ou sequer olhavam para a tela. Mesmo se olhassem, não poderiam ouvir o que que era dito pelos repórteres e comentaristas, já que a música ambiente alta abafava o som da TV.

"As pessoas não querem falar sobre seu voto ou sobre se concordam ou não com o resultado, porque têm medo da reação dos outros, já que o cenário está tão confuso que se posicionar pode ser ruim para o convívio com familiares e amigos", afirmou Juan Mari, segurança do Parlamento de Pamplona.

Quanto ao aumento das cadeiras do Vox, Mari considera que é o resultado de um "voto de castigo", como uma vingança pela falta de acordo entre os tradicionais partidos PSOE, de esquerda, e PP, de direita.

"As pessoas estão cansadas de tanto votarem e nada mudar, por isso creio que o voto no Vox foi um voto de castigo, porque as pessoas sabiam que nem PSOE ou PP entrariam em acordo e, por isso, quiseram ir aos extremos para não facilitar para os dois. Me surpreende, por outro lado, que só o extremo da direita cresceu se comparado a abril", concluiu Mari.