A primeira relação amorosa pode ser tão intensa como prejudicial, de acordo com a cineasta brasileira Alice Furtado, que nesta quinta-feira estreou o filme "Sem Seu Sangue" na Quinzena dos Realizadores, seção paralela do Festival de Cannes.

A protagonista Silvia (Luiza Kosovski) é uma jovem introvertida e desinteressada pelo mundo à sua volta até que Artur (Juan Paiva) começa a estudar na mesma escola. Um adolescente feliz, mas doente, cuja morte afunda Silvia em um transe físico e mental para tentar ressuscitá-lo.

O filme trata da evolução da protagonista desde a descoberta do sexo e do amor à dor psicossomática pela perda do jovem e, por último, a obsessão, em um giro que incorpora elementos do cinema de terror.

"Acredito que os filmes de medo frequentemente são muito sensuais. O desejo e o medo são sentimentos que andam de mãos dadas", explicou em entrevista à Agência Efe a diretora, a brasileira mais jovem a ser selecionada em Cannes.

A diretora, no entanto, já tem experiência no festival: seu curta-metragem "Duelo Antes da Meia Noite" (2011) fez parte da Cinéfondation, uma seção dedicada a projetos surgidos de escolas de cinema.

"Foi uma introdução neste universo de Cannes, mas voltar com um longa-metragem me tranquiliza para afirmar que estou no caminho certo. A Quinzena acredito que seja um lugar magnífico para a descoberta de novas vozes e propostas", declarou Alice.

A diretora brasileira se baseou para este filme em sua própria experiência, no dano provocado pela ruptura de uma relação amorosa. Teve que ir ao médico. Notou a dor em seu corpo, "mas era o luto", disse.

A cineasta não se sente "porta-voz" das pessoas de sua idade. "Pode ser que seja um desafio estar aqui, mas não me tenho a pressão de representar uma geração. Acredito que possam vir ainda muitos jovens diretores".

Alice se interessa por histórias de casal, pelo mundo criado entre pessoas que se querem, e também por música e dança. O próximo projeto combinará esses dois últimos elementos sob a forma de um documentário sobre oficinas de dança que são feitas com crianças das favelas.

A jovem diretora é consciente da dificuldade de trabalhar como cineasta no Brasil e reivindica um maior apoio do governo.

"Os critérios para o apoio mudaram muito. Há anos havia lugar para a produção independente, mas agora é muito mais difícil, porque o que dá pontos é a experiência. É preciso dar importância à cultura, porque é a base da sociedade", concluiu Alice.

A Quinzena de Realizadores, na qual a brasileira concorre em Cannes, foi lançada pela Société dês Réalisateurs de Films (SRF) para "descobrir filmes de jovens autores e valorizar as obras de diretores reconhecidos". A lista de novos talentos revelados inclui Michael Haneke e Sofia Coppola.