EFEChicago (EUA)

Nas últimas duas décadas, um homem se dedicou a construir 27 mil cruzes brancas de madeira em homenagem às vítimas de tiroteios ocorridos em Estados Unidos, Canadá e no México, entregando-as aos familiares dos mortos.

Com as viagens que fez ao longo desses 20 anos, Greg Zanis, carpinteiro que vive na cidade de Aurora, em Illinois, afirma já ter percorrido o equivalente a uma viagem de ida e volta à Lua, conforme contou em entrevista à Agência Efe por telefone.

"Minhas quatro caminhonetes acumularam 550 mil milhas (cerca de 885 mil quilômetros), cada", disse o aposentado, que se diz uma pessoa religiosa e um ativista contra a posse de armas.

Na cruzada de Zanis estão as famílias das vítimas dos dois últimos tiroteios ocorridos nos Estados Unidos em um invervalo de menos de 24 horas, em El Paso, no estado do Texas, e Dayton, com saldo de mais de 30 mortos e dezenas de feridos.

Até chegar a El Paso, ele dirigiu por cerca de 2,4 mil quilômetros, e até Dayton, outros 1,6 mil, para depois retornar a Aurora, quase sem descansar.

"Faço isso somente porque quero que as pessas sejam lembradas", contou.

Em 1997, Zanis, hoje com 68 anos, criou uma fundação na cidade em que vive com a missão de oferecer gratuitamente as cruzes para as famílias das vítimas, assim como erguer memoriais nos lugares onde acontecem os tiroteios ou outros desastres.

"Só vou aonde me chamam. Não vejo televisão ou me deixo ser influenciado pelas notícias", afirmou.

No caso de El Paso, ele iniciou a viagem após ter recebido telefonemas de familiares de 12 vítimas que solicitaram seus serviços, e de lá partiu inesperadamente para Dayton.

"Essa foi a semana mais difícil da minha vida", disse o carpinteiro, que teve o sogro assassinado a tiros durante um assalto em 1996.

No total, Zanis contabilizou ter entregado 26.921 cruzes, sendo que 21 mil foram para famílias de tiroteios. Além disso, as peças podem ser vistas em cidades que foram atingidas por tornados e incêndios, o que tiveram graves acidentes rodoviários, marítimos ou aéreos.

A fundação 'Crosses for Losses' ("Cruzes para Perdas", em tradução livre) foi criada não só por causa da morte do sogro, como pela tragédia envolvendo um menino hispânico de seis anos vítima de bala perdida.

"Sempre soube que Chicago precisava de ajuda", admitiu, sobre uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos.

O primeiro projeto que deu notoriedade a Zanis aconteceu em 1999, quando ele colocou cruzes na escola secundária de Columbine, no Colorado, onde 12 estudantes e um professor foram assassinados a tiros.

Segundo seus registros, há memoriais feitos para 17 estudantes mortos em Parkland, na Flórida, em fevereiro do ano passado, assim como para as vítimas de tiroteio em Santa Fé, no Texas, em maio de 2018, assim como para os que morreram em uma sinagoga em Pittsburgh, na Pensilvânia.

"Neste país o que falta, realmente, é amor", afirmou Zanis, que também esteve em Las Vegas, no estado de Nevada, onde 58 pessoas morreram em 2017, vítimas de um atirador durante um show, e levou cruzes para as 49 que foram vítimas de um tiroteio em uma boate gay em Orlando, na Flórida.

De acordo com o carpinteiro, que perdeu uma filha no ano passado, por causa de overdose de drogas, os Estados Unidos deixaram de lado a figura de Deus, especialmente, desde que a Corte Suprema, em 1962, decidiu abolir as orações religiosas nas escolas.

Por Jorge Mederos