EFEMónica Martínez. Lima

Após uma série de abalos em sua carreira política, com direito a um período na prisão, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, saiu de um cenário difícil nas pesquisas de intenção de voto - tinha o maior índice de rejeição - e chegou ao segundo turno das eleições presidenciais no Peru, no qual vai enfrentar o esquerdista Pedro Castillo, vencedor da primeira votação.

A ex-deputada (2006-2011) atropelou adversários na reta final de uma campanha muito acirrada - com vários candidatos tecnicamente empatados nas pesquisas - e marcada por medidas restritivas nas ruas devido à pandemia de covid-19. Ela acabou superando outros dois nomes fortes da direita que estavam bem cotados, Hernando de Soto e Rafael López Aliaga.

Keiko também deixou para trás mais de um ano de prisão preventiva em períodos acumulados entre 2018 e 2020, enquanto era investigada por crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa, entre outros. Ela foi acusada de receber irregularmente dinheiro da construtora brasileira Odebrecht durante a campanha das eleições presidenciais de 2011.

A peruana, de 45 anos, passou quase toda a vida na cena política. Aos 19, assumiu a condição de primeira-dama no governo de seu pai (1990-2000). Anos depois, dirigiu o partido Força Popular no Congresso e concorreu duas vezes à presidência do Peru, sendo derrotada no segundo turno por Ollanta Humala em 2011 e por Pedro Pablo Kuczynski em 2016.

Keiko é casada com o americano Mark Vito, que também está sob investigação por crimes de corrupção, e é mãe de duas filhas.

SOMBRA DA CORRUPÇÃO.

Em março, o promotor público José Domingo Pérez apresentou formalmente uma acusação de que Keiko Fujimori e a cúpula de seu partido receberam milhões em contribuições irregulares de empresas para as campanhas eleitorais de 2011 e 2016, entre elas a Odebrecht.

A acusação solicitou 30 anos de prisão contra Keiko, mas o julgamento ainda não foi agendado, considerando que todos os que são relacionados ao escândalo da Lava Jato no Peru sofreram atrasos devido à pandemia da covid-19.

O partido criado por ela também enfrenta a possibilidade de extinção, de acordo com a acusação, que alega que ele foi criado especialmente para receber dinheiro que não foi reportado às autoridades eleitorais.

A filha de Alberto Fujimori, que foi condenado a 25 anos de prisão por abusos aos direitos humanos, foi apontada como obstrucionista e vingativa quando, ao ser derrotada por Kuczynski em 2016, sua grande bancada no Congresso decidiu administrar sua própria agenda e rejeitou qualquer tipo de consenso político com o governo.

CONTRA O INDULTO AO PAI.

O fujimorismo - movimento político em torno de Alberto Fujimori - promoveu no Congresso a cassação de Kuczynski também por supostas ligações escusas com a Odebrecht. Isso mesmo com o agora ex-governante tendo concedido um indulto ao próprio Fujimori.

Keiko e a ala política que a apóia conseguiram expulsar seu irmão Kenji e um grupo de apoiadores que negociou com Kuczynski a soltura de Fujimori. Naquela época, no final de 2018, Keiko tentava se distanciar da imagem do pai e ser a única presença de sua família na liderança do partido.

Apesar de prometer que não haveria nenhum Fujimori nas eleições de 2021, a ex-deputada assumiu a frente da campanha presidencial disposta a retomar o bastião político de seu pai nos setores mais conservadores e de direita do país e, em sintonia com esses círculos, prometeu rigor sob seu eventual governo nos campos da saúde, da economia e da segurança nacional.

Keiko Fujimori criticou os confinamentos promovidos pelo governo para controlar o avanço da pandemia de covid-19, que no país contabiliza 1,6 milhão de contágios e 54 mil mortes, e prometeu revogar as quarentenas para facilitar a recuperação da economia e a reativação de todas as atividades produtivas.

Ele também propôs uma redução significativa da pobreza através da criação de empregos e um retorno aos níveis de crescimento do PIB de 6%, embora sem especificar como faria isso. Outras propostas que pretende implementar são duas reformas: tributária e previdenciária.

Assim que as pesquisas mostraram uma mudança de cenário e passaram a apontá-la no segundo turno, Keiko anunciou que enfrentará o "populismo e a esquerda radical", em alusão a Castillo, e disse acreditar que "muitos peruanos se juntarão" à sua candidatura, porque não querem ver o país se tornar "uma Cuba ou uma Venezuela".