EFESão Paulo

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que acaba de lançar o livro "Um paciente chamado Brasil" (Ed. Objetiva), sobre bastidores da luta contra a pandemia do novo coronavírus, voltou a criticar a postura do presidente Jair Bolsonaro em relação ao tema, alegando que ele mostrou "frieza excessiva".

Em entrevista exclusiva à Agência Efe, Mandetta, de 55 anos, também lamentou a falta de apego de Bolsonaro a dados científicos e disse que, para o presidente, o "mundo virtual é mais importante que o mundo real".

Para o ex-ministro, o presidente foi guiado por cálculos eleitoreiros e tentou transferir a responsabilidade pelos números da pandemia para estados e municípios, em vez de combater a Covid-19 plenamente.

A demissão de Mandetta - um médico ortopedista pouco conhecido pelo público em geral até o início da pandemia - ocorreu quando ele era o membro do governo mais bem avaliado em pesquisas de opinião pública.

Na entrevista, o ex-ministro também alertou sobre o "risco" para o Brasil de que o Ministério da Saúde seja dirigido pelos militares, e não por profissionais da área. A pasta atualmente é comandada pelo general Eduardo Pazuello.

Confira a entrevista:.

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Agência Efe: Quando você foi demitido, em muitas partes do país houve pedidos para que ficasse. Poucos dias depois, foi a vez de Sergio Moro, também muito popular, deixar o Ministério da Justiça. No entanto, hoje, o presidente tem a maior taxa de aprovação desde que assumiu o governo. Como o senhor explica isso?

Luiz Henrique Mandetta: Bolsonaro escolheu um caminho que pôs milhares de pessoas em risco. Para ele, em sua leitura política, a saúde é uma questão municipal, uma questão de desgaste para os prefeitos, que têm que tomar decisões difíceis. Quando ele nomeia um militar (Pazuello como ministro), ele retira o Ministério da Saúde da condução. Ele entende que o que preocupa o governo federal é a economia, porque, antes do eleitor, a saúde é uma questão municipal. A avaliação positiva (de Bolsonaro) está estreitamente associada à transferência de recursos diretos para as pessoas mais frágeis (por meio de programas como o auxílio emergencial).

Efe: As mortes pela pandemia no Brasil são de responsabilidade do presidente?

Mandetta: O presidente teve um papel preponderante. Não se pode dizer que não se sabia das consequências (da pandemia). No início, era preciso apostar no controle, o Brasil é gigantesco, com epidemias em várias fases, impossíveis de comparar com países como a Grécia. Infelizmente, estamos chegando a 150.000 mortes. Quando eu disse que podíamos chegar a 180.000, lembro que me disseram que era um exagero, que isso não iria acontecer. Ele (Bolsonaro) ficou desconfortável, e só lhe disseram o que ele queria ouvir: 'Isso não é nada, é uma gripezinha'. Depois veio a cloroquina, e ele a abraçou. E dizia que, com isso, as pessoas poderiam voltar ao trabalho.

Efe: Quais cidades e estados combateram melhor a pandemia?

Mandetta: Todos tiveram a responsabilidade de ir para a frente da população. Alguns lutaram com mais recursos, outros com menos. Diria que o estado de São Paulo foi o melhor, e o do Rio de Janeiro, nosso pior exemplo. Houve corrupção, afastamento do governador (Wilson Witzel), letalidade muito alta.

Efe: Como é o presidente Bolsonaro de perto? O que tem de bom e de ruim?

Mandetta: Ele é muito próximo, gosta de contato, também porque quem está em seu entorno têm muita empatia por ele. Ele não vai, por exemplo, a universidades públicas, onde pode encontrar um ambiente mais hostil. É uma pessoa muito franca (...) Teoricamente, o principal patrimônio de uma nação é a vida do povo. Fiquei muito frustrado por ele não ter escolhido esse ponto como o principal e por ter minimizado os alertas que recebeu. Eu o vejo como um homem que pensa tudo em termos de internet, para quem o mundo virtual é mais importante que o mundo real. Os fatos apresentados na Internet são mais importantes do que os próprios fatos. Eu vejo isso como uma falha. Talvez porque eu não seja um homem das chamadas redes sociais. Prefiro ler um livro do que passar uma hora na frente do Twitter.

Efe: Houve falta de empatia, por parte de Bolsonaro, em relação à vida das pessoas?

Mandetta: Quando vai à televisão dizendo que (a Covid-19) é uma gripezinha e quando deixa claro que vamos perder vidas, mas o que se pode fazer... Na medicina, se você pode curar, você cura. Se não, você controla a doença. Se você não pode curar nem controlar, seja solidário. É uma profissão humanista. Aquele conforto, aquela solidariedade com as famílias não existia. Naquele momento, houve uma frieza excessiva e um tipo de contabilidade, um fatalismo sobre a doença que não preocupava o governo.

Efe: Há algum risco em termos de saúde pública devido ao fato de o ministro da Saúde ser militar e não ser da área?

Mandetta: Com certeza, ainda mais nesse momento, em que essa pandemia exige um preparo do sistema de saúde para ter recursos para o pós-pandemia. Por exemplo, quantas mamografias deixaram de ser feitas em 2020? Houve uma redução de 70%. Vamos ter um impacto enorme em 2021 em cânceres como os de mama, colorretal, próstata. Você pode trocar apenas o ministro, mas se troca toda a equipe técnica por militares... Duvido que os militares tenham esse olhar para fazer esse planejamento.

Antonio Torres del Cerro.