EFEMadri

O escritor nicaraguense Sergio Ramírez, alvo de uma ordem de prisão por suas posições contrárias ao governo, denunciou nesta terça-feira em Madri que a Nicarágua está cada vez mais perto de um regime de partido único, sob o mandato do presidente Daniel Ortega, o qual considera um tirano.

"Estamos cada vez mais perto de um regime de partido único, com um simulacro eleitoral", afirmou Ramírez em declarações à Agência Efe, nas quais disse que as próximas eleições, em 7 de novembro, serão "uma grande mentira" e "um mero trâmite", com todos os candidatos da oposição presos.

"Não há nenhum partido opositor articulado. É uma crise política absoluta no país e não haverá nenhuma credibilidade se não for restabelecido o mínimo de garantias eleitorais, de garantias para a população", denunciou.

A Nicarágua convocou eleições para 7 de novembro, de modo a eleger o presidente e o vice-presidente do país, 90 deputados nacionais e 20 deputados para o Parlacen (Parlamento Centro-Americano).

Nos últimos meses, as autoridades prenderam os principais candidatos da oposição, invalidaram candidaturas e até cancelaram partidos políticos, como denunciou na segunda-feira a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

O escritor, vencedor do Prêmio Cervantes 2017, que está em Madri devido a compromissos editoriais, tem recebido inúmeras manifestações de apoio após ter sido anunciado que o Ministério Público da Nicarágua ordenou a sua prisão, acusado de "realizar atos que incentivam e incitam o ódio e a violência".

Agradeceu hoje as manifestações de apoio e as denúncias que estão a ser feitas sobre a situação política na Nicarágua, mas insistiu: "Devem ser os nicaraguenses a encontrar uma solução política para esta crise provocada por uma vontade ditatorial".

Ramírez agradeceu pelas demonstrações de apoio e pelas denúncias que estão sendo feitas sobre a situação política na Nicarágua, mas insistiu que "os nicaraguenses são os que precisam encontrar uma saída política para esta crise provocada por um desejo ditatorial".

Sobre o apoio recebido pelo governo de Daniel Ortega, o escritor reconheceu que Cuba e Venezuela fornecem "conselhos repressivos", mas lamentou que, "paradoxalmente, o apoio econômico continua sendo obtido de fontes ocidentais".

"O FMI acaba de desembolsar um empréstimo de mais de US$ 300 milhões. Isto é um verdadeiro paradoxo", analisou.

Sergio Ramírez, que desempenhou um papel ativo na revolução sandinista contra o ditador Anastasio Somoza, foi membro da Junta de Governo de Reconstrução Nacional (1979-1985) e depois se tornou vice-presidente do governo (1985-1990) de Ortega.

"Este é um paradoxo pessoal, que alguém que esteve na liderança da revolução nos anos 80 se tornou o oposto", declarou.

Em relação a Daniel Ortega, o qual disse que "se tornou um tirano", o escritor afirmou que esta circunstância "é uma história que se repete muito frequentemente": "Aqueles que aparecem como libertadores acabam como tiranos", concluiu.