EFEInés Amarelo. Cidade do México

A situação precária dos direitos humanos nas Américas foi amplificada durante a pandemia de covid-19, e os abusos se tornaram ainda mais evidentes em uma crise que vai além da saúde, de acordo com o relatório anual da Anistia Internacional.

"O que a covid-19 veio a revelar é como esses grupos historicamente marginalizados no continente, como resultado das desigualdades, negligência e abusos sofridos durante décadas, estão mais expostos ao impacto da covid-19, não apenas em termos de contágio e mortes", disse Erika Guevara, diretora para as Américas da Anistia Internacional (AI), à Agência Efe.

O relatório, divulgado nesta quarta-feira, traça a situação dos direitos humanos em 21 países do continente. Também inclui uma análise final das tendências e das questões de maior impacto, neste caso coletando a situação em 2020 e até agora em 2021.

As Américas acumularam mais de 55 milhões de contágios pelo novo coronavírus e 1,3 milhão de mortes, com Estados Unidos, Brasil e México liderando a estatística mundial de óbitos pela doença e enfrentando problemas de gestão da pandemia.

Segundo o documento, no início do ano passado as Américas eram a região mais desigual do mundo, uma situação que só piorou com a pandemia, pois outras 22 milhões de pessoas caíram na pobreza e 8 milhões na extrema pobreza.

Entretanto, a fome, a pobreza e a morte são apenas a parte mais visível de uma pandemia que aprofundou as violações dos direitos humanos e acentuou as condições de desigualdade e opressão de muitas pessoas no continente.

OPORTUNIDADES DESPERDIÇADAS.

Embora a Anistia argumente que a pandemia pode até servir como uma oportunidade para os governos mudarem de rumo e de paradigmas, "parece que nossos governos não estão aprendendo com seus erros", disse Guevara.

"A covid-19 exacerba as condições de desigualdade, de proteção, de violação do exercício dos direitos humanos, justamente devido a falhas estruturais, à negligência dos Estados e à falta de investimento público no acesso aos direitos fundamentais, entre muitos outros elementos", ressaltou.

A vacinação deveria, segundo ele, ser uma oportunidade para "os governos do continente coordenarem verdadeiramente os esforços e colaborarem uns com os outros", já que a ineficiência dos líderes e o acúmulo de vacinas pelos países ricos são preocupantes.

Em uma região marcada pela impunidade e corrupção, "a conta a pagar" é muito alta.

TENDÊNCIAS PREOCUPANTES.

O relatório analisa a situação específica dos 21 países, mas também, através de uma abordagem regional, procura tendências gerais "especialmente marcadas pela covid-19".

"Com grande preocupação, vemos como alguns governos do continente responderam à pandemia com uma mistura de negacionismo, oportunismo e descaso com os direitos humanos", afirmou Guevara, que destacou situações alarmantes em alguns países.

Por exemplo, em El Salvador e República Dominicana, mais pessoas foram detidas do que infectadas durante o mesmo período.

Em outros países como Chile, Cuba, Bolívia e Venezuela, a covid-19 foi usada como desculpa para continuar atacando os direitos à liberdade de expressão e de manifestação pacífica.

A violência contra as mulheres, ataques a jornalistas e defensores dos direitos humanos ou agressões discriminatórias baseadas na classe, cor da pele ou orientação ou preferência sexual persistiram e aumentaram em quantidade, dando origem a uma fúria social que foi contida com a desculpa das quarentenas pela covid-19.

REPRESSÃO E EXPULSÃO.

Segundo o relatório, com 264 homicídios no ano passado, a região de América Latina e Caribe foi a mais mortífera do mundo para os defensores dos direitos humanos, com 79% do total mundial de 331 assassinatos.

México, Honduras, Haiti e Estados Unidos enfrentaram crises políticas históricas, mas quando as pessoas tentaram ir às ruas para exigir responsabilidade, foram confrontadas com uma repressão que, em muitos casos, terminou em violência policial.

Sob o pretexto de medidas de saúde pública, os Estados Unidos detiveram e deportaram quase todos os solicitantes de asilo na fronteira entre os EUA e o México.

As autoridades deportaram mais de meio milhão de migrantes e solicitantes de asilo de março de 2020 a fevereiro de 2021.