EFECristina Cabrejas, Cidade do Vaticano

Após meses de debates e controvérsias internas na Igreja Católica, o papa Francisco rejeitou nesta quarta-feira a possibilidade de ordenar homens casados para acabar com a escassez de sacerdotes, especialmente nas áreas mais remotas do planeta.

A palavra final de Francisco sobre esse assunto era esperada hoje, na exortação do Sínodo da Amazônia, depois que os bispos da região aprovaram na assembleia realizada em outubro a proposta de poder ordenar homens casados reconhecidos por sua comunidade para permitir a celebração da eucaristia.

A palavra passou desta forma para Francisco, que sempre foi contra a abolição do celibato e, nesta ocasião, também não mudou de ideia e nem sequer a mencionou em seu documento "Dear Amazon", publicado hoje.

Os bispos das regiões amazônicas que participaram do Sínodo haviam aprovado a proposta de poder ordenar homens casados reconhecidos por sua comunidade como sacerdotes para poder celebrar a Eucaristia nos pontos mais inacessíveis, onde às vezes passam meses sem ver um padre.

No entanto, Francisco, embora reconheça a necessidade de que a Eucaristia chegue a esses lugares, apenas pediu que rezem pelo crescimento das vocações e que mais missionários sejam enviados para essas áreas. Nem uma palavra sobre esta proposta.

Ontem, o papa já havia dito a um grupo de bispos americanos que aqueles que esperavam uma reviravolta histórica na questão do celibato "ficariam desapontados".

No documento final, aprovado por maioria de dois terços, a assembleia dos bispos propôs que, para celebrar a Eucaristia nas áreas mais remotas da Amazônia, "ordena padres a homens da comunidade sejam ordenados sacerdotes que tenham um diaconado frutífero e recebem treinamento adequado para o presbitério, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável".

No entanto, Francisco se sequer menciona essa possibilidade e se limita "a exortar todos os bispos, especialmente os da América Latina, não apenas a promover a oração pelas vocações sacerdotais, mas também a ser mais generoso, orientando aqueles que mostram vocação missionária para optar pela Amazônia".

MAIS FUNÇÕES PARA MULHERES

No Sínodo da Amazônia, também foi solicitada uma maior participação das mulheres na Igreja, já que elas exercem o maior peso nessas áreas, e pediu o estudo da criação de diaconisas, mulheres que podem fornecer sacramentos, e cuja figura existia na Igreja primitiva e desapareceu com o tempo.

Mas Francisco também não o aceita neste documento e o justifica afirmando que é redutivo pensar que "as mulheres receberiam maior status e participação na Igreja somente se tivessem acesso à ordem sagrada".

O Sínodo também solicitou, em outro dos pontos mais controversos, estudar um rito amazônico nas celebrações para dar "uma resposta ao pedido das comunidades" e incluir suas tradições e símbolos.

Diante disso, Francisco aceitou "reunir na liturgia muitos elementos próprios da experiência do povo indígena em seu contato íntimo com a natureza e estimular expressões nativas em canções, danças, ritos, gestos e símbolos".

CRIMES E INJUSTIÇA NA AMAZÔNIA

Além das questões mais espinhosas, a exortação é uma "carta de amor" à Amazônia e um apelo ao fim das injustiças e abusos na região.

Também denuncia "os interesses colonizadores que expandiram e expandem - legal e ilegalmente - a extração de madeira e mineração, e que têm expulsado e encurralado os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes, provocando um clamor que grita aos céus".

O papa também reconhece que "os missionários nem sempre estavam do lado dos oprimidos" e afirma: "Tenho vergonha e mais uma vez peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria Igreja, mas pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América e pelos crimes hediondos que se seguiram ao longo da história da Amazônia".