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O caos econômico e social causado pela crise política na Venezuela será o protagonista das eleições presidenciais do dia 20 de maio, que ocorrerão em um clima de hiperinflação, protestos e a severa escassez de alimentos e remédios.

A situação econômica está atada à crise social, que por sua vez surge após anos de decisões políticas dos líderes da revolução bolivariana marcadas por expropriações de empresas, morte do aparelho produtivo e um controle do câmbio que começou em 2003.

Diferente de anos anteriores, os cidadãos se mostraram apáticos diante da campanha eleitoral, embora os candidatos tenham ressaltado esta crise marcada por uma alta inflação, que neste ano pode fechar em 14.000%, segundo cálculos do FMI.

A última Pesquisa Nacional de Condições de Vida da População Venezuelana (Encovi), feita pelas principais universidades do país, revelou que a pobreza extrema aumentou de 23,6% para 61,2% em quatro anos, quase 10% entre 2016 e 2017.

Essa pesquisa também mostrou que em 80% das residências não se come de forma adequada. De acordo com o levantamento, 64% dos entrevistados respondeu ter perdido uma média de 11 quilos de peso no último ano por não poder se alimentar.

Junto a esse cenário está a escassez de dinheiro, o que gerou caos nos serviços pagos apenas em moeda física, como gasolina e transporte público, inclusive com o surgimento de uma forte máfia de vendedores que cobram o dobro do custo ou mais.

O atual presidente e candidato à reeleição, Nicolás Maduro, foi o primeiro a colocar a situação econômica como prioridade no discurso proselitista, embora os números da crise tenham piorado durante o seu governo, que se iniciou em 2013.

Maduro diz em cada comício que a situação econômica do país tem se agravado devido à "guerra econômica" feita por empresários e opositores com a ajuda de outros governos, como os de Estados Unidos e Colômbia.

Essa guerra seria a responsável pela inflação, que provoca a escassez de remédios no país e faz com que os alimentos e todos os tipos de produtos sejam vendidos a custos elevados, segundo o presidente.

O governo de Maduro lançou a operação "Mãos de Papel", com a qual deteve e acusou empresários e banqueiros de serem os responsáveis por um "boicote" à economia em meio ao controle de câmbio que opera na Venezuela desde 2003.

Mas a guerra contra o governo também abrange outros âmbitos. Maduro se exime de responsabilidades quanto às falhas - cada vez mais frequentes e duradouras - nos serviços de água, eletricidade e saneamento, dizendo que se tratam de uma "sabotagem" para que o povo reaja com protestos.

Esses protestos ocorrem semanalmente nos hospitais públicos devido à escassez de remédios e de todos os tipos de tratamentos, assim como as manifestações por falta de água e luz.

A organização Codevida, que reúne várias ONGs dedicadas à saúde, denunciou a falta de equipamentos e tratamentos para pacientes renais e todas as doenças crônicas, assim como o péssimo estado dos hospitais públicos.

Enquanto isso, a falta de vacinas que deixaram de ser disponibilizadas há mais de dois anos ocasionou a volta de doenças praticamente inexistentes como a malária, a difteria e o sarampo.

Um canal humanitário para que o país receba remédios e alimentos foi solicitado tanto pelo Parlamento, de maioria antichavista, como pela comissão opositora que assistiu ao diálogo realizado com o governo na República Dominicana no ano passado.

O governo de Maduro se recusa a seguir esse caminho por considerar que se trataria de um Cavalo de Troia que abriria as portas para a uma invasão estrangeira à Venezuela.

Nélida Fernández