EFEParis

A França "ainda não está pronta" para ratificar o acordo comercial firmado entre a União Europeia e o Mercosul, segundo anunciou nesta terça-feira a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye.

"Vamos analisar isso em detalhes e, dependendo desses detalhes, iremos decidir. Por enquanto, a França não está pronta para ratificar o tratado", afirmou Ndiaye, em entrevista à emissora de notícias "BFM TV".

Para a porta-voz, os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) devem dar garantias à França para ratificar o acordo, como aconteceu com o Canadá antes de rubricar seu acordo comercial com a UE, o chamado Acordo Integral de Economia e Comércio (CETA, sigla em inglês).

"O que estávamos dizendo sobre o CETA há cinco anos não é o mesmo que dizemos hoje, pois o CETA de cinco anos atrás, não é o de hoje. Há algumas garantias que obtivemos nas conversas com o governo canadense", afirmou Ndiaye.

A porta-voz reiterou que o governo francês examinará "cuidadosamente" o texto antes de se comprometer: "Hoje não posso dizer que vamos ratificá-lo".

Horas depois, quando questionado na Assembleia Nacional sobre este mesmo assunto, o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, pediu tempo e um exame sem pressa do texto para expressar a posição final do seu país.

"Há 20 anos, as conversas estavam em andamento, e depois houve uma aceleração repentina. E não tenho certeza que, inclusive nas acelerações repentinas, a precipitação seja boa conselheira", opinou.

Para o chefe da diplomacia francesa, há três linhas vermelhas pelas quais não transigirão: o respeito integral do Acordo de Paris sobre o clima, a proteção das normas ambientais e sanitárias, e a proteção do setor agrícola francês com uma cláusula de salvaguarda.

Portanto, segundo acrescentou, a França estabelecerá sua posição definitiva uma vez constatado o respeito a essas três condições e após ter avaliado o texto com um estudo independente de impacto.

Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, François de Rugy, ressaltou que uma das "consequências indiretas" do acordo com o Mercosul é que o Brasil se comprometeu a não deixar o Acordo de Paris sobre o clima.

No entanto, lembrou que o tratado comercial "não foi ratificado ainda, e não será se o Brasil não respeitar seus compromissos" em matéria ecológica.

"Não haverá ratificação se o Brasil continuar com o desmatamento" na Amazônia, disse De Rugy.

A França tem sido desde o início um dos países mais relutantes em fechar o acordo com o Mercosul, devido principalmente às garantias ecológicas que exige e à pressão de seus agricultores, especialmente pelas importações de bovinos e açucareiros.

As negociações técnicas para um acordo entre a UE e o Mercosul começaram em Buenos Aires em abril de 2000 e desde então houve mais de 30 rodadas, um processo complexo com bloqueios de longo prazo.