EFELuís Lima, Madri

Pequenos e médios empresários de Argentina, Brasil, Uruguai, Equador e Colômbia consultados pela Agência Efe acreditam que o acordo de livre-comércio assinado pela União Europeia (UE) e o Mercosul é, sobretudo, uma "oportunidade" para se atualizar e ampliar a presença na Europa.

A concorrência sem tarifas não os intimida, segundo explicaram por e-mail e por telefone, já que o prazo previsível de dois anos para a ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos Parlamentos dos países da UE é um "período adequado" para investir em tecnologia, produtividade e inovação.

O argentino Fausto Brighenti é diretor da E-Trading Global, uma empresa de consultoria comercial com sede em Montevidéu e focada no mercado chinês. Este empresário, motivado pelo acordo comercial, já programou uma viagem em outubro à feira alimentar de Anuga, em Colônia (Alemanha), na busca de parceiros e clientes europeus.

"Vemos que o acordo UE-Mercosul vai abrir uma porta muito interessante para nós. Temos que desenvolver mais mercados", explicou Brighenti à Agência Efe ao mencionar a carne, um dos produtos que comercializa.

As micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) são 99,5% de todas as companhias latino-americanas, uma proporção similar à europeia, segundo o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).

Essas MPMEs representam 61% do emprego formal na América Latina e 69% na Europa. A grande diferença está na contribuição à produção: na América Latina é de 23%, enquanto na Europa é de 69%.

"Existe um potencial relevante para criar ingressos, riqueza e bons empregos se as MPMEs conseguirem aumentar a competitividade e a produtividade", disse à Efe o vice-presidente de Setor Privado do CAF, Jorge Arbache.

O empreendedor brasileiro Pedro Rafael, que possui com seu pai duas empresas de consultoria e eventos no Rio de Janeiro, já começou a considerar planos para estender seus serviços para Portugal e Espanha.

"Já organizamos eventos e missões - comentou - a esses dois países, mas ainda não temos presença lá. Com o acordo comercial UE-Mercosul, isso pode mudar", ao mesmo tempo que criticou a "elevada burocracia para fazer negócios no Brasil".

Definitivamente, o acordo é uma "oportunidade estratégica" para uma maior internacionalização, segundo Matías Fernández, representante da Federação Ibero-Americana de Jovens Empresários (Fixe) no Uruguai, e Guillermo Camacho, advogado equatoriano de um escritório internacional com filial em Buenos Aires.

"O acordo será extremamente favorável para as pequenas e médias empresas dos dois lados do Atlântico", disse Fernández. Os empresários, acrescentou, são "os que estão embandeirando as iniciativas dos governos para gerar estes tratados".

"O mais interessante do acordo é a exportação de serviços. E nós somos um negócio de serviços (...) Acreditamos que nos pode abrir muitas oportunidades na Europa", considerou Camacho, que trabalha no escritório de advogados Vivanco & Vivanco.

O professor da IE Business School da Espanha Juan Carlos Martínez Lázaro, responsável do relatório "Panorama de Investimento Espanhol na Ibero-América", destacou que os setores do Mercosul que têm uma vantagem competitiva como o agrícola e criador de gado podem tirar mais proveito do acordo.

As empresas que não se adaptam a uma concorrência global podem "desaparecer", acrescentou, mas haverá outras que saberão competir e ser mais forte".

Segundo Esteban Campero, assessor de MPMEs e empreendimento da Secretária-Geral Ibero-americana, há "uma frase feita" que diz que o acordo UE-Mercosul beneficiará, a princípio, pequenas e médias empresas manufatureiras europeias e os produtores primários do Mercosul, mas a realidade "não é tão assim".

"Vai ser cada vez mais necessária que as pequenas e médias empresas do Mercosul participem da rede global de valor. Temos pequenas e médias empresas dinâmicas, os setores intensivos de conhecimento é um bom exemplo", indicou, em alusão às tecnologias de informação e de comunicação.

Entre os principais desafios para uma maior internacionalização das pequenas e médias empresas do Mercosul, Jorge Arbache - executivo do CAF - mencionou o acesso a créditos a médio e longo prazo a juros de mercado, capital humano especializado e infraestruturas, e ter um "maior conhecimento do mercado internacional e sobre como fazer negócios no exterior".

Para ajudar a superar esses desafios, a colombiana Gina de Echeona oferece com sua empresa (Empreende Conmigo) suporte legal e de negócios para empreendedores latino-americanos que querem trabalhar na Europa e para europeus que desejam entrar no mercado latino-americano.

Segundo ela, duas palavras-chave para as pequenas e médias empresas que querem competir na Europa são "estratégia" e "inovação", pois nem sempre a solução é conseguir financiamento. "Muitas vezes, uma empresa pensa que necessita de financiamento e o que necessita é um aliado estratégico ou um bom cliente", disse Gina.