EFEWashington

A iminente saída de Christine Lagarde do Fundo Monetário Internacional (FMI) abre uma complexa batalha para escolher o novo diretor-gerente de uma das principais organizações do sistema financeiro internacional, comandada por ela desde 2011.

Lagarde foi indicada hoje como nova presidente do Banco Central Europeu (BCE), nomeação que ainda precisa ser confirmada por outras instâncias da União Europeia (UE), como a Eurocâmara. No entanto, após consultar o comitê de ética do FMI, a ex-ministra francesa anunciou que decidiu se afastar temporariamente do cargo.

A direção do FMI, formada por 24 membros, deve se reunir na próxima terça-feira para determinar prazos e condições para a escolha do substituto. Enquanto isso, o americano David Liptons, subdiretor-gerente da organização, assumirá as funções de Lagarde.

Apesar de a ex-ministra francesa ter mais dois anos de mandato no FMI, rumores sobre uma possível mudança de ares de Lagarde circularam o noticiário financeiro nos últimos meses. Muitos davam como certo que ela cruzaria o Atlântico de volta à Europa, mas ficaram surpresos com o cargo a ser ocupado por ela: a presidência do todo-poderoso BCE.

Advogada de formação, com ampla experiência política, Lagarde não é economista e assumirá um órgão que acaba de prorrogar medidas de estímulo monetário para apoiar a frágil recuperação econômica da zona do euro.

Em Washington, no entanto, a ex-ministra francesa, primeira mulher a comandar o FMI nos mais de 70 anos de história da instituição, soube manter as rédeas do órgão durante a perigosa crise da dívida da Europa, que incluiu o complicado programa de resgate à Grécia.

A principal conquista de Lagarde do FMI é ter tornado o órgão, referência da ortodoxia econômica mundial, mais fléxivel, aumentando também a ênfase dada a questões como a desigualdade, a igualdade de gênero e a mudança climática.

A escolha do substituto de Lagarde agora depende de um delicado processo de equilíbrio de poder dentro da arquitetura econômica mundial.

Desde os acordos de Bretton Woods de 1994, com os quais foram fundados o FMI e o Banco Mundial, Estados Unidos e Europa dividem o comando das duas instituições. Os americanos determinam os presidentes do Banco Mundial, e os europeus os diretores do FMI.

O sistema, no entanto, é criticado por países emergentes e ONGs, que questionam a falta de transparência do processo e o fato de a escolha não refletir a atual situação econômica global.

Em 2011, Lagarde chegou a disputar com a candidatura do então presidente do Banco do México, Agustín Carstens. Em 2016, sua reeleição ocorreu sem oposição alguma.

"Quero dizer que Lagarde foi uma grande líder no FMI, mas é hora de um processo aberto e competitivo para selecionar seu sucessor - há candidatos qualificados de outros países além da Europa", disse Charles Kenny, pesquisador do Center for Global Development, no Twitter.

Em abril, os Estados Unidos fizeram valer a tradição e escolheram o presidente do Banco Mundial. David Malpass foi indicado por Donald Trump para o cargo e não precisou enfrentar outras candidaturas.

Resta saber se a China, principal potência econômica emergente, desafiará o "status quo" e terá apoio suficiente para lançar uma candidatura alternativa. Ainda assim, os votos de EUA e Europa têm mais peso dentro do FMI.

Alfonso Fernández.