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O exercício da medicina nos Estados Unidos ameaça ir "para a UTI" devido a uma possível alta demanda de profissionais da saúde para os próximos anos, enquanto, ironicamente, os médicos nascidos no exterior lutam para validar seus diplomas neste país.

Segundo a Associação de Colégios Médicos Americanos (AAMC, na sigla em inglês), até o ano de 2030 haverá um déficit de 121 mil médicos nos EUA, um cenário que poderia ser compensado se forem aliviados os processos para os milhares de profissionais estrangeiros que até hoje brigam para validar seus diplomas.

"Admiro a dedicação com a qual estes médicos se entregam ao curso. Estão completamente focados nos seus estudos e participam de todas as atividades que organizamos para sua preparação, inclusive quando algumas são nos finas de semana", disse à Agência Efe Julio Girón, executivo da sede em Miami do centro Kaplan Test Prep.

A empresa, com sedes também nas cidades de Chicago, Pasadena, Nova York e Houston, é especializada na preparação para dezenas de testes padronizados e licenças, incluindo o Exame para a Licença Médica nos EUA (USMLE, na sigla em inglês) e depois para o período de residência em hospitais e centros médicos.

Um estrangeiro ou imigrante graduado em Medicina no seu país de origem, que em média precisa de sete anos de estudos, que queira transitar o sofrido caminho para o exercício da sua profissão nos EUA deverá primeiro passar pelos trâmites para o visto de estudante e um teste em inglês.

Depois, terá que estudar nos EUA cerca de três anos para passar no quarto exame do USMLE, além dos correspondentes custos (só o curso através da internet chega a cerca de US$ 30 mil).

Finalmente, lhes faltaria os anos de residência, que dependem da especialização escolhida, para conseguir praticar a medicina no país.

O boliviano Álvaro Soria é um dos milhares de latinos - a maioria entre esses profissionais - que se preparam para o exame com horários de estudos que ultrapassam as oito horas e que se estendem para lanchonetes próximas ou, como é o seu caso, o campus da Universidade de Miami

"Nosso objetivo é passar neste exame", disse à Efe Soria, que está há três meses no programa e traçou essa meta não só pela paixão pela medicina, mas por gratidão a sua família.

O boliviano explicou que seu irmão mais velho, Sergio, emigrou para os EUA após se formar como dentista em seu país, mas nunca conseguiu exercer a profissão no país de amparada e agora é ele quem custeia os seus estudos.

"É muito mais difícil do que pensava, mas a minha gratidão a ele e a minha mamãe me dão forças", afirmou Soria.

O certo é que, se percorrer com sucesso todo o caminho, Soria e os demais deverão enfrentar outro obstáculo: como trabalhar nos EUA agora que o visto de estudante venceu?

"Os Estados Unidos têm uma enorme escassez de médicos, mas os que tentam validar seu título aqui, quando finalmente conseguem, não encontram um processo fácil para trabalhar", explicou à Efe a advogada de imigração Tammy Fox-Isicoff.

O caminho, segundo ela, é aplicar um visto J, emitido para situações de treinamento profissional, mas que obriga a retornar ao país de origem por dois anos, uma vez terminado o período de residência, com o consequente risco de "perder os contatos e esquecer o que praticaram aqui".

A outra opção seria concorrer por um dos 65 mil vistos H1B, o que os empregadores estendem a profissionais após se graduarem, e são muito demandados.

Para Fox-Isicoff, o cenário se complicou por causa do endurecimento das políticas migratórias empreendidas pelo atual governo de Donald Trump, o qual, segundo disse, "é contra a imigração legal, não importa se é um profissional com habilidades extraordinárias, se é um cientista ou um agricultor".

O mais recente relatório da AAMC afirma que "a grave ameaça que representa uma real e significativa escassez de médicos" projetada para 2030, como expressou o presidente desta associação, Darrell G. Kirch, recai sobre quatro grandes categorias: atendimento primário, especialidades médicas, especialidades cirúrgicas e outras especialidades.

Celestes Rodas de Juárez.