EFEAna Milena Varón, Los Angeles

Ao contrário da festa proposta para o São Valentim, o amor não é tema de um dia só para a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, que tem um curso de três meses para estudar as raízes do amor contemporâneo.

"Estudar o amor é tão ou mais importante do que estudar física. De que adianta entender os cosmos se não conseguirmos desenvolver o conhecimento sobre nós mesmos e nossas prioridades?", disse à Agência Efe o professor Robert Pogue Harrison.

Com esta ideia, o Departamento de Humanidades e Ciências da universidade desenvolveu há cinco anos o curso "What is Love?" (O que é o amor?).

"É uma pergunta que todos em algum momento da vida se fazem, talvez não exista reposta, mas é preciso fazê-la", defendeu David Lummus, um dos criadores do curso.

O curso, que é oferecido para os alunos do primeiro ano, foi ganhando popularidade entre os estudantes. O plano de estudo pretende que no final o participante tenha tentado responder perguntas como: O amor é um fenômeno espiritual ou corporal? O conceito de amor é eterno ou está sempre mudando? O amor nos leva a pensar outras importantes questões filosóficas e sociais?

A análise feita por Harrison, que é coordenador da disciplina, é muito diferente da mercantilização que existe em torno da celebração do Dia de São Valentim. A Federação Nacional do Varejo dos Estados Unidos estima que os consumidores americanos gastarão cerca de US$ 20,7 bilhões em presentes este ano. Embora o gasto continue crescendo ano a ano, paradoxalmente a quantidade de gente que comemora a data tem diminuído.

Há dez anos mais de 60% dos americanos adultos diziam que comemorariam de alguma jeito a data. Em 2019, a porcentagem caiu para a metade disso, de acordo com a Federação.

"O amor não é trivial", ressaltou Harrison.

Prova disso é que, ao longo dos séculos, o amor romântico foi tema de discussões e inspirações para filósofos, escritores e pensadores da História da cultura ocidental. Para o professor, as pessoas que celebram o dia de hoje deveriam agradecer a Platão os conceitos de alma gêmea ou "metade da laranja".

O discurso de Aristófanes em "O Banquete", de Platão, sugere que originalmente os humanos eram criaturas complementares, mas os deuses os dividiram ao meio.

"Desde então, os humanos se sentiriam incompletos, e teriam a necessidade de restaurar a unidade e por isso buscam a outra metade perdida", esclareceu Harrison.

Enquanto a crença da outra metade dataria do século IV a.C., ações como dar flores e o cavalheirismo surgiram nos séculos XII e XIII no sul da atual França, onde se originou a poesia lírica ocidental.

Para Harrison, nossas ideias de amor romântico evoluíram muito pouco quando se trata do essencial.

"Ainda pensamos que o amor é enobrecedor e íntimo, uma forma profundamente pessoal de transcendência espiritual", disse.

Inclusive muitas letras de música são herança da grande tradição do amor cortês e do florescimento da poesia dos trovadores nos séculos XII e XIII.

"A maioria dos estudantes se surpreende ao saber que todos estes conceitos de amor e expressões de romance foram herdados e estudados por grandes nomes, como Dante e Shakespeare", revelou Harrison.

"What is Love?" não é o único curso que Stanford oferece sobre o tema. A universidade ainda possui "Love as a Force for Social Justice" (O amor como força de justiça social)", disponível online. Nas aulas, a professora Anne Firth Murray tenta conscientizar os participantes do poder do amor e da possibilidade de praticá-lo no dia a dia, além de ressaltar a ideia do amor como uma força para a justiça social.

"O amor foi, é e continuará sendo matéria de estudo", resumiu Harrison.