EFESantiago Carbone, Montevidéu

Dono de um chute potente de pé esquerdo, que o levou a marcar mais de 50 gols de bola parada, o paraguaio José Luis Chilavert marcou um antes e um depois na história do futebol.

Afastado dos gramados desde que pendurou as luvas, em 2004, o ex-goleiro de Vélez Sarsfield e Zaragoza, entre outras equipes, visitou o Uruguai para um evento beneficente no Colégio Español Cervantes, em Montevidéu.

No instituto, conversou com a Agência Efe sobre muitos assuntos, entre eles o desejo de presidir a Conmebol, ou, em algo mais grandioso, o Paraguai a partir de 2023.

Agência Efe: O que significa ser padrinho de uma ação solidária como esta que se está fazendo no Uruguai?

José Luis Chilavert: A relação que tenho com o Colégio Cervantes é maravilhosa há muitos anos e sempre ajudamos famílias carentes e colégios. Às vezes, podemos pensar que só se pode ajudar uma causa com dinheiro, mas também há muita gente que precisa de alimentos, roupa. Ou então podemos ajudar comprando a tecnologia que uma escola possa precisar.

Como eu nasci em um berço humilde e, graças ao futebol, estou em uma situação de privilégio, tento sempre ajudar. Eu estou acostumado a trabalhar também no meu país. No Paraguai, trabalho com 170 médicos de todas as especialidades. Escolhemos lugares muito humildes do Paraguai, eles fazem atendimento médico gratuito e, enquanto isso, eu dou palestras de motivação e liderança para as crianças.

Efe: Por que você faz tudo isso?

Chilavert: Nasci em um berço humilde, pobre, os meus pais sempre se sacrificaram para que não faltasse nada para os quatro filhos. Eu sempre digo que sou um amigo de Deus, que Deus me deu essa possibilidade de jogar futebol, de quebrar os moldes do mundo do futebol, de ter um prestígio que me custou obter, ser respeitado em um mundo tão difícil, onde os valores para muitos hoje têm preço. Para mim, os meus valores não têm preço. Para muitos, Chilavert é uma pessoa muito conflitiva, muito soberba, mas os que estão ao meu redor sabem o tipo de pessoa que sou, e isso para mim é o mais importante.

Efe: Acredita que os jogadores e ex-jogadores devem realizar mais ações solidárias?

Chilavert: Isso vai da pessoa, depende do sentimento. Alguns buscam isso para aparecer, e outros fazem por puro sentimento. Eu faço de coração, pelo sentimento. Eu agora deixei a minha família, deixei o meu trabalho para poder estar aqui, mas para ajudar as crianças sempre é preciso estar disposto.

Efe: Há um antes e um depois de Chilavert no futebol?

Chilavert: Acho que deixei um legado no mundo do futebol, na maneira de poder vencer um jogo. Hoje em dia, é muito difícil encontrar um goleiro que possa influenciar o adversário e também o sistema. Quando eu jogava, os técnicos diziam aos seus jogadores: 'por favor, não façam faltas à beira da área, porque temos Chilavert pela frente'. Hoje em dia, é muito difícil que um goleiro possa ter essa relevância.

Efe: Ficou algum espinho cravado em você?

Chilavert: Não ter sido campeão mundial pelo Paraguai. Acredito que a equipe na França, em 1998, poderia ter chegado mais longe se tivesse tido um pouco de sorte (foram eliminados pela equipe da casa no gol de ouro nas oitavas).

Efe: Estiveram perto de fazer história daquela vez.

Chilavert: Quando chegamos à França, os franceses não sabiam de onde éramos, nos perguntavam de que país, e lhes dizíamos: 'do Paraguai'. Desenhava para eles que estamos no coração da América do Sul. Depois desse jogo, os franceses souberam onde o Paraguai fica, porque lhes fizemos frente até o final. Quando faltavam cinco minutos para ir para os pênaltis, os fanáticos franceses estavam saindo do estádio, não queriam ver.

Efe: Como foi reerguer os companheiros nesse dia?

Chilavert: Isto é a mensagem que passei para os caras: não se deve olhar a derrota como uma inimiga. O esporte é assim, se pode ganhar ou perder. Quando Laurent Blanc fez o gol (na prorrogação), eu vi que não tínhamos mais chance e também caí. Quando olhei ao redor, os meus companheiros estavam no chão e era, por assim dizer, uma tragédia, como se você estivesse na guerra e perdeu os seus homens. O Paraguai não podia dar essa imagem de estar desolado. Eu me levantei, fui até cada um deles e lhes disse que me sentia orgulhoso de ter companheiros como eles e que deveríamos manter a cabeça erguida porque a sorte ficou do lado da França.

Efe: Gostaria de voltar à seleção paraguaia em algum cargo?

Chilavert: Algum dia posso ser manager, não descarto isso, mas certamente em breve o mundo do futebol vai ter uma notícia boa para poder tornar o futebol na América do Sul mais transparente. Seria muito importante a união e que todos os presidentes de cada país pudessem se juntar e resolver entre todos, porque hoje em dia o futebol sul-americano está sendo conduzido por personagens nefastos, que matam o futebol.

Efe: Ocuparia um cargo como dirigente?

Chilavert: No mundo do futebol, eu entraria me candidatando à presidência da Conmebol, ou então seria presidente do meu país em 2023.

Efe: Gostaria de ser presidente do Paraguai?

Chilavert: Qualquer um gostaria de ser presidente de um país. Obviamente, é preciso ver como a sua figura cai para as pessoas. É preciso fazer pesquisas e saber que a política não é fácil. O que estão claro é que eu não gostaria que o meu país caísse nas mãos do populismo, como acontece na Venezuela e pode acontecer na Argentina. Seria uma pena se a Argentina voltasse ao populismo.

Efe: Escolheria entre algum dos dois cargos?

Chilavert: Pode ser a Presidência do meu país ou a da Conmebol, tenho que decidir entre um e outro. No momento, estou dividido 50-50. Sei o que é a minha imagem no meu país, e sei o que posso dar, mas é preciso buscar uma equipe ideal, e ter homens leais dentro do mundo da política é difícil.

Efe: Você jogou na Argentina, no Paraguai e no Uruguai, três países que pensam em fazer parte da organização da Copa do Mundo de 2030. Como você vê essa empreitada?

Chilavert: Eu sou contra a Copa de 2030 ser organizada pelo meu país, posso te falar do meu país. Eu prefiro que no Paraguai sejam construídos hospitais, estradas e escolas. Acredito que há muitas coisas mais importantes que organizar uma Copa do Mundo. Eu prefiro gastar esse dinheiro em educação e saúde e não em fazer um jogo de futebol.

Efe: Que balanço você faz da sua carreira?

Chilavert: Foi o máximo, porque saí de um berço humilde e ganhei tudo. Todos os torneios que tive a oportunidade de jogar nós ganhamos, salvo a Copa do Mundo pelo Paraguai.

Efe: Qual foi o ponto mais alto que você teve?

Chilavert: Acho que a Copa de 1998 foi incrível, foi o melhor momento da minha carreira. Pelo Vélez Sarsfield também, quando jogamos a final da Copa Intercontinental contra o Milan no Japão. Foi uma final incrível, contra uma equipe poderosíssima, que ganhava de todo mundo na Europa, e o Vélez venceu por 2 a 0.