EFECarlos A. Moreno, Rio de Janeiro

Barbeiro, vendedor de frutas, verduras e legumes, são alguns dos trabalhos que jogadores de futebol de pequenos clubes tiveram que recorrer, durante a paralisação das competições no Brasil devido a pandemia da Covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus.

Sem jogos, há atletas que tiveram o contrato suspenso, outros ficaram desempregados. Enquanto isso, especialmente, no Rio de Janeiro, os clubes se movimentam - com exceção de Botafogo e Fluminense -, pela volta aos treinos e a consequente retomada do Campeonato Carioca, suspenso desde meados de março.

"Confesso que está sendo muito difícil, mas temos que buscar o sustento. Dependemos do futebol, então tivemos que procurar. Foi isso que fiz", disse o zagueiro Carlos Alberto, do tradicional América carioca, que integra o Grupo Z do estadual, chave que definiria o rebaixado para a segunda divisão.

O defensor, de 26 anos, que também já vestiu as camisas de Queimados e Nova Iguaçu, trabalha há dois meses como barbeiro, enquanto o contrato com "Sangue" está suspenso, devido a paralisação do campeonato.

"Para levar o pão para a minha família", explicou o zagueiro, em entrevista à Agência Efe.

Carlos Alberto, que se profissionalizou no futebol em 2011, revelou que não é a primeira vez que recorre ao trabalho de barbeiro, já que três anos atrás, durante um período em que não recebia em dia, teve que apostar em uma segunda profissão.

"Em 2017, o salário atrasou um, dois, três, quatro meses, e não davam uma solução. Na época, minha mulher estava grávida, e eu não tinha dinheiro para pagar nem a passagem. Como tinha que botar comida em casa, minha mãe me deu a máquina para cortar cabelo", contou o zagueiro.

A situação do lateral-direito Gedeílson, do Madureira, é ainda mais complicada, pois o vínculo com o Tricolor Suburbano foi encerrado, já que foi assinado apenas para o período de disputa do Campeonato Carioca, que deveria ter sido encerrado em 26 de abril. Sem atuar, o jogador de 27 anos.

"Recebemos a notícia de que o clube ficaria parado, meu contrato se encerrou, e fui avisado que não havia dinheiro para renovar. Decidimos, minha mulher e eu, montar um negócio para não gastar tudo o que tínhamos juntado. Aí lembrei das pessoas que vendiam frutas nos conjuntos residenciais, quando vivi em Cuiabá e Lins (no interior de São Paulo", explicou o defensor.

Gedeílson, então, decidiu empreender e passou a trabalhar com a venda de frutas, verduras e legumes, não só para conseguir receber alguma coisa, mas também como forma de ajudar o pai de um amigo, que estava desempregado e hoje trabalha com ele.

"Eu tinha um salário muito bom no futebol. Com a barraca, minha renda caiu quase 90%, mas acaba me ajudando a pagar as contas e a completar um pouco do que tinha guardado", disse à Efe o ex-América Mineiro, Ipatinga, Sampaio Corrêa, Volta Redonda, entre outros.

PREPARAÇÃO PARA VOLTA.

Carlos Alberto contou que já passou pelos primeiros procedimentos para retomar os treinamentos, já que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, liberou a realização de jogos a partir de julho, sem a presença de público nos estádios.

"Fomos ao clube e fizeram testes em nós. Nos disseram que voltaremos a treinar em junho, mas que teremos todos os cuidados por causa da pandemia", explicou o zagueiro do América.

Gedeílson, que acorda toda a madrugada para buscar produtos na Ceasa do Rio, defendeu que a prioridade de todos deve ser o combate à pandemia da Covid-19, para que a doença deixe de afetar e matar, mas admitiu estar ansioso por pisar novamente nos gramados.

"O futebol é o que sei fazer e o que me dá sustento de verdade. Espero que tudo isso passe, e que possa receber uma ligação do meu empresário, dizendo para mim sobre uma nova chance em outro clube", concluiu.