EFEClaudia Polanco Yermanos, Bogotá

As agitadas águas do rio Pato, que por mais de 50 anos viram navegar os atores do conflito armado colombiano no sul do país, hoje são testemunha do renascer de ex-guerrilheiros das Farc (as extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que decidiram entregar as armas e empunhar um remo para evitar que a paz naufrague.

Rodeados do verde das imponentes montanhas do departamento de Caquetá e armados de colete salva-vidas, capacete e remo, cinco ex-combatentes e três moradores da região, entre eles uma mulher, formaram a equipe "Remando pela Paz", que representou a Colômbia no último mês de maio no Campeonato Mundial de Rafting.

No rio Tully, da Austrália, um dos mais perigosos do mundo, esse grupo de novatos enfrentou pela primeira vez o desafio de representar sua bandeira nacional, uma experiência que contaram orgulhosos em Bogotá, onde participaram da 22ª Feira do Campo Colombiano-Agroexpo.

"A viagem foi emocionante porque chegamos com medo do desconhecido, mas para nós, mais que competir, o importante era levar uma mensagem de paz da Colômbia e por isso podemos dizer que vencemos", disse à Agência Efe o ex-guerrilheiro Hermides Linares.

Com seus 42 anos, Linares jamais pensou que, como membro das Farc, fosse possível sair do país legalmente e muito menos ser recebido com aplausos por atletas estrangeiros que, a mais de 14.000 quilômetros do rio Pato, exaltaram o esforço dos colombianos que, para surpresa de todos, conseguiram a 13ª posição entre 40 experientes equipes de 30 países.

Nesse dia, Linares, que militou por 27 anos na temida coluna Teófilo Forero sob o comando de Hernán Darío Velásquez (conhecido como "El Paisa"), hoje foragido da Justiça, entendeu que as promessas da paz podem se tornar realidade.

Com base nesse mesmo princípio, 17 ex-guerrilheiros - dentre os 300 que depois de assinar a paz com o governo em 2016 se instalaram no Espaço Territorial de Capacitação e Reincorporação (ETCR) da aldeia de Miravalle, na jurisdição de San Vicente del Caguán, que faz parte de Caquetá - trabalham para realizar o Primeiro Campeonato Nacional de Ratfing.

Nesse evento, que acontecerá no final de setembro no rio Pato, a cooperativa da antiga guerrilha, denominada Economias Sociais do Comum (Ecomun) e a empresa Caguán Expeditions, da qual fazem parte os membros da "Remando pela Paz", esperam contar com a participação de pelo menos 18 equipes.

A intenção não é outra além de que "o rafting seja mais conhecido no país e com isso divulgar a paz aproveitando o fato de que o esporte une as pessoas", destacou Linares.

A esperança lhes faz pensar também que a Federação Internacional de Rafting cumprirá a promessa que lhes fez na Austrália de transformar Miravalle na sede desse evento mundial em 2023.

No entanto, os ex-guerrilheiros sabem que o caminho das reincorporações à sociedade não é fácil.

Para empreender sua iniciativa lhes valeu muito ter navegado centenas de vezes pelo rio Pato durante a época mais sangrenta do conflito. Por essas águas que agora parecem tranquilas passou inclusive o fundador das Farc, Pedro Antonio Marín, de codinome "Tirofijo".

Foi tal a importância estratégica desse rio para os guerrilheiros que o exército colombiano o bombardeou em 1965 para evitar que a região seguisse se consolidando como uma "república independente".

Por isso, para Linares foi surpreendente a ideia de formar uma empresa como a Caguán Expeditions, que se foca no turismo de aventura e natureza, e mais ainda que policiais, soldados e cidadãos colombianos, que antes evitavam ir a essa parte do país por medo de serem sequestrados, agora se interessem cada vez mais a remar junto com eles.

"Esta experiência nos fortaleceu e nos fez entender que a guerra ficou no passado, porque agora o que queremos é nos projetar para o futuro aproveitando a capacitação que recebemos do governo e da ONU para seremos empresários e atletas", ressaltou Linares.

Além disso, o rio também lhes ensinou que, por mais bravas que sejam as águas, devem seguir firmes no compromisso de remar juntos para evitar que o redemoinho do conflito afunde a balsa da paz.