EFEMaría D. Valderrama. Paris

Moradores de Paris se reuniram nesta terça-feira para uma vigília em torno de uma Notre-Dame devastada por um incêndio e planejam a continuidade das celebrações da Semana Santa, além de sonharem com uma restauração que torne o templo ainda mais monumental.

A incredulidade predomina no Bairro Latino e nas suas ilhas, marco zero de Paris. Em uma delas fica Notre-Dame, agora sem a icônica "flecha" e o telhado, cuja restauração alguns franceses temem que dure décadas.

Gaspard Benilan trabalha no bairro. Ele passa todos os dias na frente da catedral de bicicleta. Submerso na rotina do dia a dia, ele tinha deixado de perceber a presença do templo. Até o trágico incêndio ocorrer.

"A gente passa por aqui todos os dias e não percebe mais, mas há uma parte da nossa identidade neste tipo de monumento. Hoje de manhã, pensei que encontraria um monte de cinzas. O telhado está destruído, mas poderia ter sido pior", afirmou ele à Agência Efe.

Freiras que passavam perto da catedral não quiseram dar entrevista, mas sorriam esperançosas. Uma delas afirmou brevemente que elas vão se concentrar no apoio aos trabalhos de restauração e em celebrar ao máximo a Semana Santa.

De todos os lugares possíveis, muitos moradores e turistas tentam registrar uma imagem da tragédia com fotos e vídeos. Outros apenas olham hipnotizados.

Mais do que centro de Paris, a Catedral de Notre-Dame é o coração da cidade. Na ilha onde ela fica, a Île de la Cité, séculos antes de Cristo, estavam os Parísios, uma tribo da Gália, cujo nome persistiu, apesar da ocupação romana e do nome que recebeu: Lutetia. Cheia de pequenas igrejas até o surgimento da catedral e foco do poder real até o século XII, foi nessa pequena região onde o cristianismo se fixou, graças a São Dionísio.

Martial Schwoerer, professor de História, estava na Ponte Louis Philippe observando o que havia acontecido. Para ele, o desastre pode se tornar uma oportunidade.

"O que me preocupa agora são os danos ao interior, mas me pergunto: já que o belo telhado desapareceu, não seria interessante refazê-lo envidraçado, como a Pirâmide do Louvre? Está chovendo dinheiro de todo o mundo, o que muito bom, mas o ponto é que há grupos de artesãos desaparecendo, e é a mão da obra que pode faltar. Embora falte quem 'saiba fazer', isso pode servir para criar uma nova geração de artesãos", afirmou.

Stefan Noel, que trabalha no Palácio de Justiça, na mesma ilha, passeia todos os dias pela região. Hoje, apesar do incêndio, não foi diferente.

"Venho fazer a minha homenagem. É muito triste, mas fomos dormir ontem à noite com a dor de vê-la ardendo e hoje acordamos cheios de esperança, porque vamos reconstrui-la", declarou.

Na França, afetada por uma crise de identidade, esta reconstrução será, segundo Noel, "um momento de solidariedade e de comunhão nacional".

"Participarei a partir de hoje da arrecadação de verba. Esta será uma bela obra do século XXI", disse. EFE

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