EFEGuillermo Ximenis, Londres

O tortuoso processo de saída da União Europeia (UE) ameaça abalar a imagem de marca do Reino Unido, cujo prestígio como sinônimo de inovação e qualidade se mantém nos mercados emergentes, mas sofre nos mais consolidados, como o europeu e o dos Estados Unidos.

O Japão já superou neste ano o Reino Unido como quarto país com imagem de marca mais valiosa, segundo uma pesquisa da consultora Brand Finance, que atribui à "incerteza do Brexit" a queda de patamar britânica.

Apesar disso, o estudo ressalta que as principais empresas internacionais do Reino Unido estão conseguindo resistir à tempestade, em particular aquelas com forte presença em mercados mais longe da Europa.

No último ano, o valor de marca das 150 principais companhias britânicas "desafiou as previsões" ao aumentar 10%, para 369 bilhões de libras (US$ 471,89 bilhões ou R$ 1,96 trilhão), segundo os cálculos da Brand Finance.

"A decisão final sobre o Brexit ainda não foi tomada, por isso ainda não está descartada do valor de marca nacional. Os próximos meses serão cruciais na hora de determinar a perspectiva futura do Reino Unido", disse à Agência Efe o CEO da consultora, David Haigh.

Apesar de diversas empresas enfrentarem dificultades econômicas no Reino Unido, em particular aquelas expostas à crise do setor varejista, a reputação de muitas companhias com origem neste país resiste fora das ilhas britânicas.

Um exemplo desse prestígio foi dado nas últimas semanas pela operadora de turismo britânica Thomas Cook, que quebrou em setembro após 178 anos de história. Mesmo assim, a chinesa Fosun pagou mais de US$ 14 milhões para assumir a marca, e continuará oferecendo pacotes turísticos com o nombre do missionário batista de Derbyshire (Inglaterra) que fundou a famosa agência de viagens.

INFLUÊNCIA EM MERCADOS EMERGENTES.

Quase 65% dos consumidores indianos e 57% dos chineses pagariam mais por produtos importados do Reino Unido porque os consideram como de melhor qualidade, segundo um estudo elaborado pelo banco Barclays.

Na França, por outro lado, apenas 29% dos compradores definem produtos britânicos como melhores, e em Alemania e Irlanda o número é ainda menor: 22%.

A análise de mercado do banco sugere que a maioria dos consumidores de China, Índia e Emirados Árabes Unidos está disposta a pagar a mais por um produto britânico em relação a um similar local.

Já franceses, alemães e americanos precisariam de um desconto para preferir um produto do Reino Unido em relação a um nacional em igualdade de condições.

Os alimentos britânicos são, contudo, uma exceção, e são especialmente valorizados em todos os países analisados.

Desde a vitória dda opção pelo Brexit no referendo de 2016, os governos conservadores do Reino Unido defenderam a necessidade de aproveitar a influência britânica em novos mercados, uma estratégia que é resumida pelo repetido slogan "Grã-Bretanha Global".

O atual primeiro-ministro, Boris Johnson, é um fervoroso defensor da saída da União Europeia para que o país tenha maior flexibilidade regulatória ao negociar acordos de livre-comércio com países não-europeus.

BANCOS E PETROLEIRAS.

No "top 10" de marcas britânicas mais valorizadas estão duas petroleiras (Shell e BP) e dois bancos (HSBC e Barclays) - embora a anglo-holandesa Shell tenha sede na Holanda e o HSBC seja originário de Hong Kong.

A única dessas quatro marcas que perdeu valor em 2019 foi a do Barclays, que caiu 11,6%, segundo a Brand Finance. BP (19,2%), HSBC (13,7%) e Shell (10,6%) se valorizaram.

A consultora EY é a marca britânica cujo valor deu o maior salto salto em 2019 em relação ao ano anterior, com um crescimento de 39,8%.

A montadora Land Rover e a BT, de telecomunicações, por sua vez, tiveram os piores resultados desse "top 10", com quedas de 20,8% e 25,5%, respectivamente.

BANDEIRA BRITÂNICA.

O setor corporativo do Barclays recomenda às empresas britânicas que divulguem de maneira bem visível em seus produtos a Union Jack, a bandeira nacional do Reino Unido, por considerar que é um dos principais símbolos que transmitem confiança aos consumidores, especialmente fora da Europa.

"O aspecto visual da marca é particularmente importante ao promover a essência britânica de seus produtos em mercados emergentes. Mostrar a bandeira britânica entre potenciais clientes pode aumentar a intenção de que (os produtos) sejam adquiridos", aconselhou o banco em um relatório.