EFESan Juan

As mensagens vazadas que levaram milhares de pessoas às ruas de Porto Rico para exigir a renúncia do governador Ricardo Rosselló são apenas a ponta do iceberg da crise política que abala a ilha, que ainda se recupera da destruição causada pelo furacão Maria.

O escândalo das mensagens trocadas por integrantes do governo provocou uma série de protestos contra Rosselló e desencadeou também a saída da secretária de Imprensa, Dennise Pérez, que renunciou após ser chamada de corrupta na frente de um de seus filhos.

Nas mensagens, reveladas pelo Centro de Jornalismo Investigativo no último sábado, o governador e seus assessores mais próximos zombam e insultam jornalistas, artistas, políticos e mulheres.

O protesto da última quarta-feira, convocado por um grupo feminista e artistas como Ricky Martin, Bad Bunny e Resident, mostrou o que sentem muitos dos porto-riquenhos que pedem a renúncia de Rosselló: as mensagens são só o estopim de uma crise que se arrasta há muito tempo.

São mais de dez anos de recessão econômica, de uma dívida impagável de US$ 70 bilhões que provocou uma moratória e a prisão de funcionários do governo por fraude de US$ 15,5 milhões entre 2017 e 2019. Tudo isso em meio à devastação provocada pelo furacão Maria há quase dois anos.

Os auxílios dos Estados Unidos, país do qual a ilha é um estado livre associado, estão chegando a conta-gotas, as seguradoras não reembolsam dinheiro suficiente para reconstruir a destruição da passagem do furacão e a Autoridade de Energia Elétrica (AEE) sobrevive em condições precárias, agravadas por uma dívida imensa.

Os porto-riquenhos são obrigados a viver com apagões diários, estradas sem iluminação. Os que perderam suas casas devido ao Maria moram em imóveis de tetos provisórios. Além disso, várias escolas permanecem fechadas desde a passagem do furacão pela ilha.

Para piorar, a Junta de Supervisão Fiscal, órgão criado pelo Congresso dos Estados Unidos para tentar resolver a colossal dívida de Porto Rico, ameaça cortar as aposentadorias dos funcionários do governo.

O conteúdo das mensagens vazadas foi o estopim de uma crise que precisava de um pequeno empurrão para explodir.

Fora os protestos, Roselló vem perdendo apoios políticos importantes, como o de Jennifer González, do Partido Novo Progressista (PNP), o mesmo do governador, e que representa Porto Rico no Congresso dos EUA. Ontem, ela pediu que o correligionário renuncie.

Outro que abandonou Rosselló foi o ex-governador Luis Fortuño, que pediu que ele deixe outra pessoa terminar o mandato.

"Faço um chamado ao governador. O futuro de Porto Rico está em jogo e a figura dele torna impossível que passemos para um novo capítulo da nossa história. Se agarrar à cadeira (de governador) faz esse processo ser mais difícil para todos. Pelo senhor, por sua família, pelo nosso ideal e por Porto Rico, deixe que outro termine seu mandato", pediu Fortuño.

O presidente dos EUA, Donald Trump, criticou os "líderes corruptos" de Porto Rico e os acusou de roubarem "tudo o que podem" da ilha.

"Estão ocorrendo coisas muito ruins em Porto Rico. O governador está sendo pressionado e a prefeita de San Juan é uma pessoa desprezível e incompetente, na qual eu não confiaria em nenhuma circunstância", escreveu Trump nas redes sociais.

A senadora democrata Elizabeth Warren, que disputa as primárias para ser a candidata do partido nas eleições presidenciais americanas de 2020, também pediu a renúncia de Rosselló.

Durante os protestos deste sábado, a Associação Democrática das Américas (ADS), sindicato que representa mais de 20 milhões de trabalhadores na região, também defendeu a renúncia do governador.

A situação de Rosselló pode se tornar insustentável na segunda-feira, quando os opositores de governador prometem realizar a maior manifestação desde o início da crise e forçar sua renúncia.