EFESabela Bello e Gonzalo D. Loeda, Caracas

Depois de cinco anos à frente da Assembleia Nacional, o parlamento da Venezuela, a oposição ao governo de Nicolás Maduro, liderada por Juan Guaidó, que considera as eleições legislativas deste domingo uma fraude, dedicou seus últimos meses a uma desesperada contra-campanha que busca, sem sucesso, neutralizar o chavismo através de um referendo.

Principal arma usada pela oposição neste contra-ataque particular, a consulta popular, marcada para a semana seguinte às eleições, tem o propósito saber qual é a opinião "real" do povo sobre os aspectos políticos do país.

Essa é a última cartada da oposição depois de outras tentativas fracassadas de reconquistar o apoio popular e internacional com o qual passou a contar em janeiro de 2019, quando Guaidó se autoproclamou presidente interino do país com a promessa de derrubar o sucessor de Hugo Chávez e "libertar" a Venezuela.

No entanto, 22 meses depois, nada mudou no país caribenho. As limitadas conquistas obtidas pelo opositor esgotaram a paciência e as esperaças de quem acreditava nele, e muitos de seus apoiadores se afastaram do projeto no qual antes confiavam.

Em uma tentativa desesperada de se agarrar ao impossível, Guaidó tenta legitimar sua ideia de que continua cumprindo um mandato provisório, sem ter sob sua responsabilidade instituições públicas, funcionários ou forças de segurança do Estado, e sem ter margem de manobra.

A partir de 5 de janeiro, ele também perderá o controle do parlamento para os chavistas.

REFERENDO.

"Você exige o fim da usurpação da presidência por Nicolás Maduro e convoca eleições presidenciais e parlamentares livres, justas e verificáveis?", é a primeira pergunta do referendo promovido pela oposição, que dá a entender que todos os venezuelanos consideram que o atual presidente é um "usurpador", uma premissa que não corresponde à realidade.

A segunda, embora seja mais genérica, é composta por duas partes e admite apenas um resposta, "sim" ou "não": "Você rejeita o evento de 6 de dezembro organizado pelo regime de Nicolás Maduro e solicita à comunidade internacional que não o reconheça?".

Já a terceira pergunta é: "Você ordena o adiantamento dos procedimentos necessários perante a comunidade internacional para ativar a cooperação, o acompanhamento e a assistência que tornem possível resgatar a nossa democracia, enfrentar a crise humanitária e proteger as pessoas dos crimes contra a humanidade?".

A priori, parece que não poderia haver outra resposta que não um retumbante "sim", independentemente de ideologias. Sim à cooperação, sim à democracia, sim ao apoio diante da crise humanitária e sim à proteção das pessoas contra crimes tão graves.

Mas a obviedade, a simplicidade da abordagem e a limitação foram algumas das questões mais criticadas por diversas pessoas desde que as perguntas foram divulgadas.

Além disso, elas serviram, principalmente, para lembrar a Guaidó, mais uma vez, que ele continua com as mesmas abordagens de janeiro de 2019, mesmo sabendo que não é algo viável.

Guaidó rejeita qualquer opinião contrária e se nega a escutar a voz das ruas e a levar em conta as críticas da grande massa que o apoiou totalmente quando considerava que ele poderia ser a pessoa capaz de mudar radicalmente a Venezuela.

DESERTO DE IDEIAS.

Além disso, a realização de uma consulta popular está longe de ser uma ideia original e eficaz. Em 2017, a Assembleia Nacional promoveu uma com uma pergunta muito semelhante e, o resultado não teve nenhum efeito prático.

"Há um deserto de ideias, um deserto de possibilidades e ilusões", explicou à Agência Efe o cientista político Daniel Varnagy, professor da Universidade Simón Bolívar, sobre a estratégia da oposição.

Esta falta de ideias reverberou até na própria campanha para promover a participação do povo no referendo, com a utilização do lema "Venezuela, levante a sua voz", que é o mesmo que o governo tem utilizado para pedir votos para as eleições legislativas.

Aquele Guaidó que fez uma aposta alta em janeiro de 2019, ao se autoproclamar presidente interino e conseguir que mais de 60 países se manifestassem a favor dele e contra Maduro, ficou para trás.

"(O apoio que conseguiu) foi algo que não era esperado, e acho que foi extraordinário", opinou Varnagy.

No entanto, o especialista destaca que o panorama agora é outro e que não se vê "nenhum daqueles países" que reconheceram Guaidó como chefe de Estado "promovendo grandes ações", motivo pelo qual ele acredita que "nada está sendo feito para mudar o sistema político venezuelano".

Para ele, isso significa que "o que era uma liderança da oposição deixou de sê-lo" devido à ausência de ações em meio a um excesso de palavras.

"Quando só existe uma oposição discursiva, com pessoas emblemáticas sem capacidade de ação política, não se poderia falar em oposição, mas em graduações de discurso diferentes, onde há retóricas a favor e contra o partido que está no poder, mas que não passam disso", argumentou o cientista político.

LUTA PELA SUCESSÃO.

Diante desse contexto, muitos consideram que no dia 6 de janeiro de 2021, um dia após o início do mandato dos novos integrantes do parlamento, a atual direção da oposição terá cumprido o seu curso e estará condenada ao esquecimento.

Assim, começará a batalha para ver quem será o novo líder capaz de canalizar a insatisfação e o desencanto do povo venezuelano.

"A base dos partidos políticos vai ter que derrubar os pequenos ditadores que estão dentro deles, que, ainda por cima, enfrentam processos na Justiça", sentenciou Varnagy.

A descrença nos grandes nomes da oposição é visível e palpável nas ruas, mas vem crescendo para alguns partidos específicos, que homogeneizaram o protesto e acabaram se tornando quase extensões de políticos fracassados.

Segundo o professor universitário, é aí que a juventude e os políticos de base terão um papel importante, mas longe dos holofotes, durante "um ano de transformação não da oposição, e sim da política venezuelana" que será início quando "os líderes intocáveis até agora forem descartados".