EFEBuenos Aires

Imersos em uma "crise importante" em relação a modelos de negócio, os veículos de comunicação ainda não chegaram a um entendimento com as plataformas online, como o Google e o Facebook, para a correta monetização do conteúdo, gerando um problema de propriedade intelectual global.

Esta foi uma das ideias centrais do debate organizado nesta terça-feira pela Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa), que através de um seminário online com dois especialistas internacionais abordou vários problemas em torno do valor do conteúdo que os veículos de comunicação publicam na internet.

Esta questão, que é fundamental para a sustentabilidade econômica dos veículos, é global porque envolve, por um lado, todos os atores da estrutura política - juízes, legisladores e reguladores - e, por outro, a mídia e as plataformas online, disse Diego Garazzi, presidente da Comissão de Propriedade Intelectual da Adepa.

Para Garazzi, os que mais têm se beneficiado desta relação são as plataformas, como Google e Facebook, que aproveitam o "conteúdo de qualidade" produzido pelos próprios meios de comunicação, algo que se tornou ainda mais evidente durante a crise do coronavírus.

"O lucro monumental das plataformas e o seu valor econômico e social (é que) se beneficiam da criação de ambientes onde o usuário pode encontrar tudo o que precisa ou deseja, sem ter de sair daquela plataforma. Isso não pode ser compreendido se estas plataformas não tiverem o material de qualidade que as pessoas procuram e encontram", analisou Garazzi.

No momento, os avanços mais importantes na resolução deste problema têm ocorrido nos Estados Unidos, Austrália e países europeus, entre eles Espanha, França e Alemanha, embora a maioria dos países latino-americanos também estejam analisando a questão.

CONFLITO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL E CONCORRÊNCIA.

Hoje em dia, os meios de comunicação lidam com um paradoxo: há uma grande demanda por conteúdos de qualidade, mas o seu rendimento econômico "caiu pela metade nos últimos dez anos", como resultado da queda da publicidade e de uma transição incompleta para o ambiente digital.

Esta é a conclusão de Danielle Coffey, assessora-geral da News Media Alliance, organização que representa 2.000 meios de comunicação nos Estados Unidos. Para ela, outra razão para esta realidade é que existem dois intermediários "muito dominantes": Google e Facebook, que acumulam a maioria das receitas de publicidade digital.

"O Google utiliza o nosso conteúdo deliberada e estrategicamente para o benefício econômico próprio e para o nosso prejuízo financeiro", argumentou a especialista, acrescentando que trata-se de um "abuso" de conteúdo jornalístico por parte dessas duas empresas.

Uma possível solução, segundo Coffey, seria criar uma "igualdade de condições" entre as plataformas e os meios de comunicação e permitir que os meios obtenham "uma compensação pelo jornalismo de qualidade", o que seria possível utilizando tanto as leis de propriedade intelectual como as leis da concorrência.

Alguns países da União Europeia (UE) já fizeram progressos neste âmbito, destacou Wout Wan Wijk, director executivo da News Media Europe, lembrando que isto se deve, em parte, à criação de uma "coalizão de jornalistas" para enfrentar as empresas de tecnologia, cujos recursos são muito maiores.

A estratégia atual do Google é "ganhar tempo" nos processos judiciais abertos em alguns Estados-membros da UE, enquanto tenta fechar acordos bilaterais com cada meio de comunicação, uma estratégia clássica de "dividir para conquistar".

"É perigoso, pois ajuda o Google a negociar certas questões para baixo. Penso que é importante que estejamos conscientes de quais são os direitos mínimos e que asseguremos que a indústria se manterá unida se quisermos um mercado sustentável ao longo do tempo", disse Wan Wijk.

O QUE PENSAM OS USUÁRIOS?

Todos esses debates ocorrem em um contexto em que o público "também perdeu a fé ou o sentimento de consumidor pelas plataformas", segundo Danielle Coffey, devido a escândalos recentes - hackers, fake news, violações da privacidade - que afetaram tanto o Google como o Facebook.

Entretanto, os meios de comunicação tradicionais continuam a ser a principal fonte de informação para muitas pessoas, o que se intensificou durante os meses da pandemia, quando os consumidores "voltaram ao jornalismo de qualidade, e não às redes sociais, como a principal fonte de informação", frisou Wan Wijk.

"Acho que a época na qual as grandes empresas de plataformas se viam como a grande luz dos apóstolos acabou. Isso beneficia diretamente a nossa indústria? Acho que não, mas penso que o Vale do Silício está se tornando cada vez menos popular", opinou.