EFEAntonio Broto, Genebra

A Suíça possui em suas montanhas alpinas mais de 1.400 geleiras, consideradas essenciais para o ciclo da água na Europa, mas que podem diminuir drasticamente ou até mesmo desaparecer, segundo um estudo publicado pela Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL).

Mesmo se o mundo inteiro reduzisse hoje as emissões de dióxido de carbono (principal gás causador da mudança climática) na atmosfera, as geleiras suíças podem ser reduzidas a apenas 50, conforme apontou o relatório.

A Suíça, que conta com a maior geleira da região dos Alpes (a de Aletschs, que integra a lista do Patrimônio Mundial da Unesco) vem observando a redução de seus blocos de gelo a cada ano desde 2001.

Depois da publicação do estudo realizado pela EPFL, uma reportagem exibida pela televisão local "RTS" mostrou que, entre os anos de 2008 e 2018, as geleiras suíças perderam entre 30 e 40 metros de extensão e aproximadamente 10% do volume.

Só entre 2017 e 2018, os imensos blocos de gelo do país perderam 1,4 quilômetro cúbico de água, o que equivale a mais de meio milhão de piscinas olímpicas.

Para 2019, as estimativas podem piorar ainda mais. Assim como vários outros países europeus, a Suíça foi atingida pela onda de calor no continente e registrou temperaturas extremas em julho, durante um dos verões mais quentes da história.

Segundo a "RTS", verões cada vez mais quentes são os responsáveis por "matar as geleiras", pois, quanto maior a temperatura, mais rápido o sol derrete o gelo.

Para tentar frear a drástica redução das geleiras suíças, um grupo de especialistas trabalha contra o relógio na região de Saint Moritz, no leste do país, famosa pelas luxuosas estações de esqui. Lá, na próxima segunda-feira, será iniciado um projeto que prevê inserir camadas de neve artificial nos montes.

Outra estratégia do projeto é revestir geleiras menores com lonas durante os meses mais quentes. Graças a essa medida, o monte Diavolezza, um popular destino nos Alpes suíços, ganhou 15 metros de espessura nos últimos sete anos. No entanto, apesar da iniciativa, os prognósticos para o futuro das geleiras continuam pessimistas.

No dia 24 de setembro, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apresentará em Mônaco as conclusões do seu relatório sobre os efeitos do aquecimento global nos oceanos e nas zonas geladas do planeta. Esse é o terceiro estudo elaborado em caráter emergencial pela instituição após a assinatura do Acordo de Paris, em 2016.

Antes, o IPCC fez um apelo à comunidade internacional para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau e recomendou adaptações no uso da terra e nas dietas humanas para alcançar o objetivo.

Já um estudo elaborado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com sede na Suíça e assessora da ONU em temas ambientais, alertou em abril que quase a metade das geleiras consideradas Patrimônio Mundial podem desaparecer caso o atual nível das emissões de gases tóxicos seja mantido.

A UICN estima que 21 das 46 geleiras do mundo que fazem parte da lista da Unesco podem desaparer até 2100. Ainda segundo a entidade, até mesmo no mais otimista dos cenários, oito desses blocos de gelo poderão sumir completamente.

Entre as reservas do Patrimônio Mundial da Unesco ameaçadas estão o Parque Nacional de Monte Perdido, nos Pireneus (na Espanha e na França) e o Parque Nacional Los Glaciares na Argentina, além de outros populares destinos naturais, como os Alpes, as Montanhas Rochosas e o Himalaia. As geleiras cobrem cerca de 10% da crosta terrestre e acumulam mais de 60% de toda a água doce da Terra.