EFEIgnacio Ortega, Nursultan

O presidente do Cazaquistão, Qasim-Yomart Tokayev, começa nesta segunda-feira o processo de transição do poder no país diante do atento olhar de grandes potências, investidores estrangeiros e uma população que exige reformas urgentes.

Na primeira entrevista coletiva posterior à vitória nas eleições de ontem, o político, que assumiu em março - depois que "o pai da nação", Nursultan Nazarbayev, deixou o cargo após 30 anos no poder -, disse rejeitar o termo transição e que se considera um chefe de Estado de pleno direito e "não um companheiro de viagem".

"As eleições aconteceram, o presidente foi eleito", enfatizou ele, que venceu o pleito antecipado para ontem com 70,96% dos votos, de acordo com os resultados divulgados pela Comissão Eleitoral Central, muito à frente dos outros seis candidatos.

Tokayev, no entanto, ficou longe dos 98% conseguidos por Nazarbayev em 2015.

O presidente, de 66 anos, tem agora a difícil tarefa de garantir a estabilidade política e a segurança dos investimentos, ao mesmo tempo em que atende aos anseios de mudança dos habitantes.

China e Rússia, os principais parceiros comerciais do Cazaquistão, e os investidores ocidentais apostavam na vitória de Tokayev, mas consideram que o país deve iniciar reformas econômicas para diminuir a dependência das exportações de produtos derivados do petróleo. Na entrevista coletiva, ele destacou que dará prioridade ao desenvolvimento das relações e da cooperação com os países vizinhos, entre eles Rússia, China e países da Ásia Central.

Tokayev, que já disse que não vai mudar a política externa do Cazaquistão, tem desafios internos, pois parte dos cazaques, especialmente os jovens, acredita que, com a renúncia de Nazarbayev, o país deve aproveitar a oportunidade para abrir um processo de democratização para uma sociedade mais justa. E as demonstrações das tensão social estão aumentando, a julgar pelos protestos de ontem na capital, Nursultan, e na segunda maior cidade do país, Almaty.

Durante todo o domingo, agentes da polícia de choque foram vistos entre os manifestantes, o que não evitou que os confrontos acabassem com quase 500 detidos. Hoje, outras 50 pessoas foram presas em Almaty, entre elas algumas que protestavam contra o resultado.

Segundo o presidente eleito, os protestos foram convocados por pessoas de fora do país e por alguns cidadãos "se comportaram de forma indecorosa e provocaram a Polícia, que tomou medidas".

Em uma clara mensagem à sociedade, ele prometeu um governo "com novas pessoas", entre elas alguns jovens, e defendeu o diálogo construtivo. Além disso, lembrou a sua proposta de formar um Comitê de Confiança Social com representantes de diversos círculos sociais para trocar opiniões.

Em todo caso, a urgência em satisfazer as demandas sociais é inadiável, como disse à Agência Efe o jornalista e único candidato da oposição nessas eleições, Amirzhan Kosanov.

"Se Tokayev não apostar em reformas, a panela de pressão pode explodir", alertou ele, o primeiro opositor a concorrer à presidência em 14 anos e que ficou em segundo lugar, com 16,23% dos votos, na frente de Daniya Yespayeva, a primeira mulher a se candidatar ao posto de presidente na história do país (5,05%).

Tokayev, porém, afirmou que as eleições foram "abertas e justas" e que outras organizações que observaram o pleito fizeram boas avaliações.

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) afirmou nesta segunda-feira que as eleições foram marcadas por "grandes irregularidades", como votos em grupo e assinaturas idênticas nas listas de eleitores, e "violações das liberdades fundamentais", como o direito de reunião e de expressão.

A ex-comissária europeia Benita Ferrero-Waldner, presidente do Conselho Eurasiático para Assuntos Exteriores, por sua vez, disse que até onde ela observou, "as eleições foram justas e houve muitos candidatos, inclusive uma mulher".

Ferrero-Waldner, que conhece bem Tokayev, disse que o governante continuará trabalhando com a União Europeia (UE) e melhorará as relações que começaram com um primeiro acordo em 2009, quando ela foi comissária, e que foi reforçado em 2015.