Transcrição completa da entrevista realizada pelos presidentes das dez maiores agências do mundo, entre elas a Efe, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

- "A Rússia não tem nada a ver, como Estado, com os hackers".

- "Se a Otan se aproximar de nossas fronteiras, a Rússia não pode ficar só olhando".

- "A 'russofobia' salta aos olhos, e em alguns países cruza todas as linhas".

- "Se a Suécia entrar na Otan, consideraremos uma ameaça e devemos responder".

A primeira resposta do presidente russo foi a uma pergunta do diretor-geral da agência "TASS", Serguei Mikhailov, sobre a "russofobia":.

Putin: Antes de mais nada, gostaria de falar sobre as causas do que ocorre, sobre as causas desta 'russofobia'. Esta salta aos olhos, e em alguns países cruza todas as linhas.

A que isso se deve? Na minha opinião, tem a ver com o estabelecimento de um mundo multipolar, e este não agrada aos defensoras do monopólio. O monopólio, como se sabe, é algo ruim, mas os monopolistas sempre lutam por ele em todos os âmbitos, em todos os setores e âmbitos da nossa vida.

Estabelece-se um mundo multipolar e isto acontece, e não em último lugar, graças à luta da Rússia por seus interesses. Quero destacar: por seus interesses legítimos. Esta é a primeira parte.

A segunda consiste em que certo tempo atrás os nossos parceiros em determinados países começaram a realizar tentativas para conter a Rússia, para conter seu afã legítimo de garantir os seus interesses nacionais, com ações que não estão dentro do direito internacional, incluindo restrições de caráter econômico. E agora veem que isto não funciona, que o efeito é nulo. E isto cria irritação interna, o desejo de conseguir o seu objetivo por qualquer meio, o afã de agravar a situação. Mas lamentavelmente para os que o fazem, nós não damos motivos. Tentam, como dizem as pessoas, buscar pretextos no nada.

Vai durar muito isto? Acredito, em qualquer caso confio, que não muito, não será eternamente, já que se deverá tomar consciência de que isto é contraproducente e prejudica a todos. Claro, nos causa certo prejuízo, mas também prejudica a quem impulsiona essa política. Da minha maneira de ver, já se está tomando consciência. Vemos muito claramente determinadas mudanças na situação. Confio em que esta tendência será mantida.

Pergunta: Na Alemanha, onde logo haverá eleições, se reage com bastante nervosismo aos possíveis ataques cibernéticos por parte da Rússia. E é possível que hackers russos queiram injetar alguma informação falsa na campanha eleitoral. Acredita que é possível?

Resposta: Os hackers podem estar em qualquer lugar, podem sair de qualquer parte do mundo. Claro que o ambiente geral nas relações entre os Estados têm muito a ver com isso, porque os hackers são pessoas livres, como os pintores. Um dia os pintores se levantam de bom humor e se dedicam a pintar. O mesmo acontece com os hackers. Se acordam pela manhã e leem o que está acontecendo hoje nas relações entre os Estados e se são patriotas, vão querer pôr seu grão de areia no que consideram uma luta contra aqueles que falam mal da Rússia. É possível isso? Teoricamente sim. Mas, como Estado, nunca fizemos estas coisas. Isto é o mais importante.

Também posso imaginar que alguém o faça de propósito, criando uma rede de ataques cibernéticos de maneira que o território da Rússia seja a sua origem. As tecnologias contemporâneas permitem isso, e é uma coisa que pode ser feita com bastante facilidade.

Mas o mais importante é que nenhum hacker pode influir de forma decisiva em uma campanha eleitoral em outro país. Nenhuma informação pode ter nenhum efeito sobre a consciência dos eleitores e do povo, não pode afetar o resultado final. Esta é a minha resposta. Não nos dedicamos a isto a nível de Estado nem temos intenção de fazê-lo. Ao contrário, tentamos lutar contra isto no nosso país. Em qualquer caso, tenho certeza de que os hackers não poderão influir na campanha eleitoral de nenhum país de Europa, Ásia ou América.

Pergunta: Fala-se muito das boas relações entre o senhor e o presidente Trump. Vocês são tão amigos como se diz?

Resposta: Não nos conhecemos. Não nos vimos nem uma só vez. Mas (o então candidato) Trump disse que as relações com a Rússia tinham um nível muito baixo e que se devia melhorar essa relação. Estamos dispostos a dialogar com Trump. Tenho que reconhecer que gosto deste tipo de pessoas: são simples, diretos, têm uma visão muito franca das coisas e isso pode ser muito proveitoso.

Não me perguntem sobre que conselho lhe daria porque alguém como Trump não necessita de qualquer conselho e, menos ainda, do conselho de alguém que ocupa um cargo equivalente, pois isto sempre será mal interpretado e, portanto, contraproducente.

O que quero deixar claro é que nos interessa muito abrir linhas de diálogo com o senhor Trump, ainda que eu não saiba se isto será possível.

O que me une com o senhor Trump é que nem ele nem eu éramos políticos profissionais. Eu não era membro de nenhum partido e não me considero um político profissional.

Não sei como Trump se sente a respeito, mas acreditem, não é oportuno dizer que eu gosto ou não do senhor Trump. Simplesmente, precisamos estabelecer uma boa política de relação pessoal. Não sei se isso será possível, mas temos muita paciência e vamos esperar para ver o que acontece.

Pergunta: Como avalia as perspectivas de solução do problema nuclear da Coreia do Norte, sobretudo no contexto da atividade das tropas americanas na região?

Resposta: Da mesma forma que aconteceu com o Irã, pode-se falar da ameaça nuclear da Coreia do Norte. Mas não acredito que se trate da Coreia do Norte. Inclusive se a Coreia do Norte declarar amanhã que cancela todos os seus testes nucleares, o posicionamento do sistema de defesa antimísseis dos EUA continuará. Será com outro pretexto ou sem pretexto, como fazem na Europa.

Quando falávamos do sistema de defesa antimísseis na Europa, nos diziam todo o tempo que era feito para neutralizar o programa nuclear e a ameaça procedente do Irã. Supostamente. Agora foi assinado um acordo com o Irã e já não há nenhuma ameaça, assim confirma o Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA). Apesar disso, o posicionamento do sistema de defesa antimísseis continua a um ritmo rápido. Contra quem?

Sempre dissemos que estão nos enganando. E nos respondiam que tudo era pelo Irã. E agora eu sou o único que fala disto, enquanto que todos os demais estão calados como se não entendessem que estamos falando. Vocês entendem tudo. Então, por que ficam em silêncio? Vocês continuam todos calados, enquanto a situação piora. Tudo isto leva a uma nova corrida armamentista. É uma coisa óbvia. Nós estamos todo o tempo pensando em como responder. Pensamos em como aperfeiçoar os nossos sistemas para superar o escudo antimísseis.

Pergunta: Neste contexto, acredita ser possível a desmilitarização das Ilhas Curilas?

Resposta: O aumento de nosso potencial militar no extremo oriente da Rússia geralmente e nas ilhas em particular não é por iniciativa nossa, da mesma forma que na Europa. As bases da Otan se aproximam de nossas fronteiras ocidentais, crescem as suas infraestruturas e o seu contingente (militar). Que devemos fazer, ficar olhando? Não, não vai ser assim. Reagimos da forma correspondente.

O mesmo acontece no Oriente. Um porta-aviões americano se aproxima de nós, depois outro. Dizem que o terceiro já está a caminho. Os porta-aviões chegam e vão, mas temos um sistema de defesa antimísseis que nos preocupa muito, e já estamos há dez anos falando disso. É algo que destrói o equilíbrio estratégico no mundo.

Todos vocês são pessoas adultas e com décadas de experiência no mundo da informação, mas se calam sobre isso. O mundo está em silêncio, como se nada acontecesse. No Alasca, agora também na Coreia do Sul aparecem elementos do escudo antimísseis. Devemos ficar olhando da mesma forma que na parte ocidental da Rússia? Pois não. Planejamos como responder a estes desafios, porque para nós é um desafio.

O mesmo acontece com as ilhas. Pensamos em como garantir nossa segurança, como neutralizar as ameaças nas nossas fronteiras distantes. E nesse sentido, as ilhas são um lugar cômodo para fazê-lo. Assim que não estou de acordo em que estejamos começando a militarização dessas ilhas de forma unilateral. Trata-se de uma resposta necessária ao que acontece.

Quanto à possibilidade teórica da entrada em cena de tropas americanas nessas ilhas, supondo que algum dia passem para a soberania do Japão, sim, essa possibilidade existe. Deriva do acordo (entre EUA e Japão) e dos protocolos assinados. Não nos mostram, mas conhecemos seu conteúdo em geral. Não vou dar os detalhes, mas os conheço. Por acaso queremos piorar as nossas relações com os EUA? Não, não queremos fazê-lo, e ainda que nada nos coloque medo, vemos o que acontece agora nos EUA. Toda essa campanha antirrussa, essa "russofobia", continua. Não sabemos como se desenvolverá essa situação, porque não iniciamos esse processo. Nesta situação, para nós é absolutamente inaceitável pelo menos supor que amanhã possam aparecer lá (nas Curilas) bases ou elementos do escudo antimísseis.

Claro que é possível conseguir a desmilitarização das ilhas, mas não é suficiente. Devemos pensar em reduzir a tensão em toda a região. Só assim poderemos fechar acordos de longo alcance, ainda que agora mesmo não possamos dizer como serão.

Pergunta: Na Suécia há agora um intenso debate sobre a incorporação ou não à Otan. Qual é sua opinião a respeito?

Resposta: "É claro que, se a Suécia ingressar na Otan, isto vai causar um impacto negativo em nossas relações. Consideraríamos uma ameaça adicional.

Não vamos ficar histéricos, mas de alguma maneira teremos que responder. Os suecos saberão se (entrar para a Otan) é algo do qual precisam, mas nenhuma pessoa com bom critério pode sequer imaginar que a Rússia vai atacar a Suécia.

Estão sendo dadas muitas informações falsas sobre se os nossos submarinos estão perto da Suécia, etc. Isso é completamente falso. E eu me pergunto: realmente interessa à Suécia estar envolvida neste conflito?

Pergunta: Este ano há eleições na Alemanha. Gostaria de trabalhar com a chanceler Angela Merkel ou com Martin Schulz?

Resposta: Angela Merkel e eu nos conhecemos há muito tempo. Temos diferenças, mas também temos muitos pontos de conexão, sobretudo em questões de cooperação econômica. Certamente em alguns aspectos de política internacional também temos opiniões em grande parte parecidas. Mas, insisto, há problemas cujas possíveis soluções entendemos de forma diferente.

O senhor Schulz apenas o conheço, mas tem uma ampla experiência tanto na política europeia como alemã, e voltou há pouco para a política alemã. Para nós, e me refiro a toda a equipe (do governo) russo, a princípio dá no mesmo com quem trabalhar. O importante é que essas pessoas se orientem a uma cooperação construtiva. Não temos nenhuma preferência. Na minha opinião, se tanto nós como nossos parceiros focarmos nos interesses fundamentais dos nossos países, em vez de nos deixar levar pela conjuntura, certamente encontraremos pontos de conexão e o caminho correto para uma cooperação efetiva.

Não tenho nenhuma dúvida a respeito, porque temos muitos interesses em comum. A interdependência em alguns setores econômicos é tamanha que da nossa cooperação dependem dezenas de milhares ou inclusive centenas de milhares de postos de trabalho, tanto na Alemanha como na Rússia. É um fator importantíssimo da nossa convivência no mundo atual, sobretudo na Europa.

Alguns produtores alemães têm uma enorme rentabilidade no mercado russo. Não é preciso ser um grande especialista para também saber que a economia russa tem interesse na cooperação tecnológica (com a Alemanha). Deve-se dizer que fazemos muito e com sucesso neste âmbito. Não só porque estão se recuperando os volumes de comércio com a República Federal, que acredito que cresceram em 40% no primeiro trimestre. Também estamos fazendo toda uma série de projetos nos quais a localização em território da Rússia de indústrias (alemãs) de alta tecnologia chega a entre 60% e 70%. Um bom exemplo é a indústria automobilística.

Nenhuma empresa alemã tem saído do mercado russo, apesar de todas as dificuldades de caráter politico. Todas continuam trabalhando, inclusive no meio das dificuldades econômicas como a queda do PIB, a redução da renda efetiva da população, e em consequência, a queda da demanda. Nós, por parte do Estado, tentamos apoiá-los.

Sem falar da energia. A Alemanha renunciou à energia nuclear, enquanto na estrutura do seu balanço energético a energia nuclear ocupa uma grande porcentagem, maior que a da Rússia. De onde tirará então os recursos primários? As reservas da Noruega estão se esgotando, da mesma forma que as do Reino Unido, que logo se tornará consumidor líquido. Já na última edição do Fórum (de São Petersburgo) falamos das perspectivas da península de Yamal, onde temos algumas reservas de 2,7 trilhões de metros cúbicos de gás. A Gazprom acaba de me informar que descobrimos lá mais recursos, até o dobro. Outros 4,2 trilhões de metros cúbicos. E tudo isso em um lugar, em um território não muito grande. A cooperação neste campo é de sentido comum, conforme a proximidade entre Rússia e Europa, a logística barata e os procedimentos consolidados. Falamos de uma energia barata, a mais ecológica entre os hidrocarbonetos.

Os contratos (de energia) de longa duração garantem provisões estáveis e a competitividade de toda a economia alemã. É algo sumamente importante. Uma energia relativamente barata obtida de uma fonte segura.

Além disso, historicamente temos algumas relações humanitárias consolidadas, sempre as tivemos. Apesar da tragédia das duas guerras (mundiais), o contato entre os nossos povos sempre se manteve. Por que digo isto? Acredito que as pessoas que governarem a República Federal sejam capazes de avaliar essas relações e esses fatores fundamentais terão, aconteça o que acontecer, um papel positivo.

Pergunta: Em relação à Espanha, está disposto a trabalhar em uma política de isenções de vistos para favorecer as relações bilaterais?

Resposta: Na Rússia, ficaremos felizes em poder flexibilizar a política de vistos com a Espanha, mas mais do que um problema nosso, é um problema da Espanha, que é quem tem restrições por pertencer ao espaço Schengen.

Mas haveria muitas opções para apressar essa política. Um exemplo pode ser a Turquia, onde temos um sistema de vistos muito simples que poderíamos copiar para a Espanha. Isso permitiria liberar os vistos para os jovens, políticos, pessoal de organismos oficiais, e certamente para o turismo.

Pergunta: Que análise faz sobre a situação extrema que se vive na Venezuela? Como vê a aproximação entre Estados Unidos e Cuba?

Resposta: A Venezuela é um país que está vivendo uma luta política muito intensa. Queremos que tanto a oposição como o governo respeitem as regras do jogo, acatem a Constituição e não permitam os radicalismos.

Em relação a Cuba, cumprimentamos a relação com os Estados Unidos. Demonstra que a política de sanções não serve para nada. No caso de Cuba, só serviu para prejudicar os cubanos. Foi uma boa decisão de Obama que nós parabenizamos e aprovamos.

Pergunta: Quando vai anunciar sua decisão sobre se concorrerá ou não às eleições presidenciais de março de 2018?

Resposta: "Agora não é o momento. Falta cerca de um ano, e isso é muito tempo. No mundo contemporâneo da política, é muito (tempo). Leve em conta que, ao começar qualquer pré-campanha eleitoral, todo mundo para de trabalhar, e eu não vou contribuir para isso. Por isso, não vou adiantar nada agora. Será mais tarde. É preciso esperar.

Pergunta: Há sinais de recuperação da economia russa?

Resposta: Estamos melhor, isso é claro. No ano passado, conseguimos nos estabilizar, e estamos nos acostumando a conviver com os preços baixos do petróleo. O PIB começou a crescer 0,3% no último trimestre do ano passado. Neste ano, constatamos um crescimento do consumo de recursos energéticos e do transporte em 0,5%.

"A economia russa está se recuperando. O investimento estrangeiro aumentou em cinco vezes no ano passado, ajudando a balança comercial a atingir um superávit". Temos uma taxa de inflação de 4,6%, a mais baixa na história da Rússia moderna. E um desemprego de 5,2% por cento, que é muito menor que o de muitos países europeus. Fomos construindo pouco a pouco uma rede de incentivos para apoiar nossa economia. Estes e novos números vou poder apresentar na sessão plenária de amanhã.

José Antonio Vera e Virgínia Hebrero.