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Um estudo divulgado nesta segunda-feira adverte sobre o perigo que representam as mais de 16 mil usinas de dessalinização de água que operam no mundo todo e que produzem 142 milhões de metros cúbicos de salmoura por dia, um número 50% maior do que o estimado anteriormente.

O estudo foi realizado por cientistas do Instituto para a Água, o Meio ambiente e a Saúde (UNU-INWEH, na sigla em inglês), um órgão da ONU baseado no Canadá, e pesquisadores da Universidade de Wageningen (Holanda) e do Instituto Gwangju de Ciência e Tecnologia (Coreia do Sul).

Os especialistas analisaram dados recentemente conhecidos e os mais completos já compilados das mais de 16 mil usinas de dessalinização e descobriram que a salmoura - água com grande concentração de sal - produzida pelas mesmas é muito superior ao calculado anteriormente.

Um dos autores do estudo, o doutor Manzoor Qadir, vice-diretor do UNU-INWEH, declarou para a Agência Efe que "o impacto potencial da salmoura é muito grande. Ela aumenta a temperatura da água do mar e reduz a quantidade de oxigênio na mesma, o que causa graves danos à vida aquática".

Qadir também disse que as usinas de dessalinização representam outro impacto negativo ao meio ambiente porque o processo de absorver água marinha para a dessalinização elimina muitos animais marítimos que são apanhados em redes para evitar que sejam sugados.

Edward Jones, o principal autor do estudo e professor da Universidade de Wageningen, disse à Efe que, para cada litro de água potável produzido pelas usinas de dessalinização no mundo todo, são gerados em média 1,5 litro de salmoura.

A produção anual é suficiente para cobrir todo o estado da Flórida (Estados Unidos) com 30,5 centímetros de salmoura, segundo a pesquisa.

Qadir e Jones explicaram que os maiores problemas se concentram no Oriente Médio e, mais especificamente, em quatro países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait e Qatar.

Esses quatro países produzem 55% da salmoura gerada no mundo todo por ano. A Arábia Saudita é o principal contribuinte, com 22%, seguida por EAU, com 20,2%, Kuwait (6,6%) e Qatar (5,8%).

Além disso, o professor Jones destacou a Espanha, pois trata-se de um dos principais produtores de salmoura do mundo e o maior da Europa.

Segundo os dados apresentados pelos autores do estudo à Efe, a Espanha tem uma capacidade de dessalinização de 5,6 milhões de metros cúbicos por dia, o que representa 5,9% do total mundial e 64% da Europa Ocidental.

Quanto à produção de salmoura, a Espanha gera 5,8 milhões de metros cúbicos por dia, 4,1% da cota mundial e 69% da Europa Ocidental.

Jones acrescentou que a tecnologia de dessalinização utilizada na Espanha é das mais avançadas e mais eficientes, por isso seu impacto ambiental é menor.

O aspecto mais positivo do estudo é que os autores assinalam que a salmoura pode ser utilizada economicamente, por exemplo na aquicultura, para a irrigação de espécies tolerantes ao sal, gerar eletricidade e recuperar produtos como magnésio, gesso, cálcio, potássio, cloro, lítio e até mesmo urânio.

Qadir disse que "é necessário transformar um problema ambiental em uma oportunidade econômica. Isto é particularmente importante em países que produzem grandes quantidades de salmoura, como Arábia Saudita, EAU, Kuwait e Qatar".

O vice-diretor do UNU-INWEH destacou que, por exemplo, a salmoura já foi utilizada em aquicultura para aumentar a biomassa de peixes em até 300%, e para cultivar o suplemento alimentar espirulina, que é produzido a partir de algas azuis.

Os autores indicaram que é essencial melhorar as tecnologias de dessalinização e reduzir seu impacto ambiental porque até 2 bilhões de pessoas vivem na atualidade em regiões com escassez de água que poderiam se beneficiar da conversão de água marinha em água potável.

"Há uma necessidade urgente de tornar as tecnologias de dessalinização mais baratas e estendê-las para países de média e baixa rendas. Ao mesmo tempo, temos que responder aos problemas potencialmente graves da dessalinização", declarou o doutor Vladimir Smakhtin, diretor de UNU-INWEH, que também participou do estudo.