EFERicardo Pérez-Solero, Jacarta

A poda ilegal de árvores ameaça um dos maiores santuários de orangotangos na ilha de Bornéu, onde uma veterinária espanhola luta para preservar um hábitat no qual o governo indonésio fez uma concessão de terras a uma companhia madeireira.

Entre 950 e 1,2 mil orangotangos, segundo números oficiais, vivem em Sungai Putri, uma área de cerca de 57 mil hectares do distrito de Ketapang, na província de Bornéu Ocidental, dominada por turfeiras e de uma grande biodiversidade.

"É a terceira maior população da província e uma das maiores de Bornéu e do mundo", disse à Agência Efe Karmele Llano Sánchez, veterinária oriunda de Bilbao que dirige a organização conservacionista International Animal Rescue (IAR).

Nos últimos 10 anos, mais de 50 orangotangos foram resgatados na floresta de Sungai Putri e de seus arredores pela organização liderada pela veterinparia, que chegou ao arquipélago em 2003 como voluntária em vários centros de reabilitação para animais selvagens.

Nessa região, o governo indonésio aprovou em 2015 uma concessão de 40 mil hectares à empresa indonésia PT Mohairson Pawan Khatulistiwa (MPK) para realizar uma plantação de madeira industrial na metade do terreno e efetuar poda seletiva de floresta na outra metade.

No entanto, a ministra de Meio Ambiente e Florestas, Siti Nurbaya Bakar, congelou o projeto em março do ano passado depois que vários relatórios revelaram a construção de canais para drenar turfeiras, o que ameaçava o ecossistema da floresta e a população de orangotangos.

Apesar da decisão do governo, uma investigação do Greenpeace revelou operações de poda ilegal dentro da concessão à PT Mohairson Pawan Khatulistiwa em pelo menos seis acampamentos que operam de noite e "inclusive perto de ninhos de orangotangos".

"Não está claro se a poda é realizada pela MPK ou por terceiros que se aproveitam das estradas que a companhia construiu", disse o Greenpeace.

Além disso, a ativista da organização ambientalista no país asiático, Ratri Kusumohartono, assegurou que a investigação "é uma grande vergonha para o governo da Indonésia, que prometeu recorrentemente proteger Sungai Putri".

Já a veterinária espanhola advertiu que o desmatamento na periferia da floresta movimenta os orangotangos para o interior e provoca "densidades mais elevadas do que em um ecossistema natural".

Apesar de a ministra anunciar sanções e mandar encher de terra os canais na concessão, imagens de vídeo e fotografias tiradas por ativistas recentemente (fevereiro deste ano) mostram os canais cheios de água e escavadeiras perto dos mesmos.

O território de turfeiras, que ocupa 84% de Sungai Putri, é protegido na Indonésia por meio de uma moratória do governo para as licenças de exploração de floresta primária e combustível de origem vegetal, vigente desde 2011, e mediante regulações para sua proteção posterior aos incêndios de 2015.

Nesse ano, incêndios em geral provocados para o cultivo nas ilhas de Sumatra e na parte indonésia de Bornéu queimaram cerca de 2,6 milhões de hectares, causaram perdas econômicas milionárias e afetaram a saúde de residentes em países vizinhos como Brunei, Malásia e Cingapura.

Segundo um estudo do governo do ano passado, em Bornéu vivem 57.350 orangotangos e em Sumatra outros 14.290.

Ambas populações estão em perigo de extinção pelo desmatamento provocado pela expansão de plantações de óleo de palma e, em menor medida, da indústria da celulose e mineradora.