EFEEduardo Davis, Brasília

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul encerraram nesta quinta-feira a Cúpula anual do Brics, na qual se mostraram preocupados em relação aos grandes conflitos que estão ocorrendo no mundo, mas ignoraram completamente os que se passam na América Latina.

A "Declaração de Brasília", com 73 pontos e que reúne todas as conclusões da cúpula, cita os conflitos na Síria, no Oriente Médio, na península coreana, no Afeganistão, na Líbia e em diversas regiões da África, mas não menciona nenhuma situação da América Latina, que vive uma onda de protestos em diversos países.

Os presidentes de Brasil, Jair Bolsonaro; Rússia, Vladimir Putin; China, Xi Jinping; e África do Sul, Cyril Ramaphosa; além do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, lamentaram em termos gerais as "persistentes ameaças à paz e à segurança mundial" e se comprometeram a enfrentá-las "de acordo com a Carta da ONU".

Embora tanto Brasil como Rússia e China tenham interesses na Venezuela e na Bolívia, onde a crise pós-eleitoral levou à renúncia do presidente Evo Morales, a região não teve espaço na declaração.

A situação boliviana foi debatida nos corredores da cúpula, tanto por diplomatas como em declarações do Kremlin e do governo brasileiro, que já reconheceram a senadora Jeanine Áñez como nova presidente do país.

No caso da Rússia, o reconhecimento foi expressado pelo vice-chanceler Sergei Ryabkov, que disse que, ainda assim, o Kremlin classifica "o que precedeu a mudança de poder" como o equivalente a um golpe de Estado, visão da qual o governo de Jair Bolsonaro discorda totalmente.

INOVAÇÃO E MULTILATERALISMO.

Os cinco países, que concentram cerca de 40% do comércio do planeta, também enfatizaram a defesa do multilateralismo e rechaçaram as práticas protecionistas, apostando na tecnologia e na inovação para expandir o comércio e alavancar a economia mundial.

Os Brics insistiram que são necessárias reformas na ONU, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e na Organização Mundial do Comércio (OMC), de modo que essas entidades reflitam melhor os interesses dos países emergentes e em desenvolvimento.

Os parágrafos que se referem à inovação e ao comércio foram vinculados a outros nos quais os cinco países, que estão entre os maiores emissores de gases poluentes do mundo, pedem ações globais a favor de uma economia mais limpa.

Neste contexto, ressaltaram os compromissos com a implementação do Acordo de Paris e com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

AMPLIAÇÃO DO BANCO.

No dia de encerramento da cúpula, também foi formalizada a intenção de ampliar as atividades e o número de sócios do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), fundado pelos Brics em 2014, mas ainda sem prazos nem metas.

"A expansão dos membros do NBD" fortalecerá o banco como "instituição global de financiamento do desenvolvimento", destaca um dos pontos da declaração.

De acordo com o documento, essa ampliação contribuirá "para a mobilização de mais recursos para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos Brics e outros mercados emergentes e países em desenvolvimento".

Os líderes não esclareceram qual será o ritmo dessa ampliação nem se já existem países negociando ou interessados em uma possível incorporação ao NBD. Os Brics disseram que o processo será progressivo e que "não se devem esperar muitas novidades" a curto prazo.

O NBD foi criado em 2014 com aportes dos cinco países e um capital inicial de US$ 50 bilhões. Chegou inclusive a ser apontado como uma espécie de concorrência para o FMI e outras entidades internacionais, o que parece distante atualmente.

Desde que foi fundado, o NBD financiou projetos por um total de US$ 10 bilhões, uma quantia modesta se tratando das cinco maiores economias emergentes do planeta.