EFEBuenos Aires

O Grupo de Puebla, um fórum que reúne líderes progressistas da América Latina e da Espanha, emitiu nesta quinta-feira uma declaração, assinada por ex-presidentes como Dilma Rousseff, na qual manifestou "repúdio" ao que alega ser uma "perseguição" judicial sofrida pela vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner.

"O Grupo de Puebla lamenta e rejeita a guerra jurídica (lawfare) que está sendo travada contra a vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner em um processo atormentado por contradições e motivado por interesses políticos obscuros de conglomerados econômicos poderosos", afirma o texto.

Cristina, que foi presidente do país entre 2007 e 2015, enfrenta a reta final de um julgamento no qual é acusada de fazer parte de uma associação ilícita durante seus anos como presidente, supostamente destinada a favorecer com contratos de obras públicas o empreiteiro Lázaro Báez, que já foi condenado em 2021 por chefiar um esquema de lavagem de dinheiro obtido a partir de contratos de obras públicas concedidos durante os governos kirchneristas.

Na segunda-feira, durante a fase de alegações, a procuradoria alegou que a atual vice-presidente e seu falecido marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), criaram "uma das matrizes mais extraordinárias de corrupção" durante seus mandatos no cargo.

O Grupo de Puebla considera que este caso confirma "a tendência arriscada, mas infelizmente comum" de outros casos na América Latina contra ex-presidentes como Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Evo Morales e Dilma Rousseff, com um denominador comum: "retaliação por seu trabalho do lado do progressismo".

"Expressamos nosso repúdio a esta perseguição e advertimos sobre os sérios riscos que ela implica para a democracia argentina", afirma o documento, assinado por 26 líderes políticos, entre eles, além de Dilma, o ex-presidente do Governo da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero.

MAIS DE TRÊS ANOS DE JULGAMENTO.

Depois de deixar a presidência, em 2015, quando Mauricio Macri ganhou as eleições, Cristina Kirchner começou a ser processada em vários casos por suposta corrupção durante seus mandatos, algo que a líder da ala kirchnerista do peronismo sempre alegou se tratar de 'lawfare' (guerra jurídica) para destruir personalidades políticas.

Desde que ela voltou ao poder como vice-presidente, com Alberto Fernández como chefe de governo, algumas acusações foram retiradas, mas outras continuam em trâmite.

O único julgamento em andamento com ela no banco dos réus começou em 21 de maio de 2019, poucos dias depois que Cristina anunciou sua aliança com Alberto Fernández para as eleições de outubro daquele ano, que os dois acabaram vencendo.

O caso envolve supostas irregularidades na concessão de 51 contratos de obras públicas a empresas de propriedade de Báez na província de Santa Cruz, no sul do país.

Segundo o Ministério Público, a contratação de obras públicas viárias naquela província foi "intencionalmente escolhida" como meio de desvio de recursos. EFE