EFEAntonio Torres del Cerro, São Paulo

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), acentuou as críticas que vinha fazendo, junto com vários outros chefes de governos estaduais, ao presidente Jair Bolsonaro pela gestão federal da crise causada pela pandemia do coronavírus transmissor da Covid-19.

Em entrevista à Agência Efe no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, Doria declarou que Bolsonaro "não está com as faculdades mentais em plenitude para poder exercer o comando do país".

O governador disse também que, pelo cargo que ocupa, não deve "avançar sobre o ponto de vista daquilo que pode ser feito", e que cabe ao Congresso "avaliar e tomar a decisão, o que fazer com um presidente que não tem capacidade para raciocinar e interpretar e comandar um país".

São Paulo é o estado brasileiro com mais casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e mortes relacionadas à Covid-19 (1.223 e 68, respectivamente), segundo dados da Secretaria de Saúde.

Agência Efe: O senhor endureceu ultimamente o discurso contra Jair Bolsonaro. O que está acontecendo?

João Doria: Nós temos um presidente que está dessintonizado com a realidade. Não é razoável que um presidente da República classifique uma crise de coronavírus que afeta o mundo, uma pandemia, como um resfriadozinho, uma gripezinha. Não é razoável também que o próprio governo faça uma campanha para que as pessoas não fiquem em casa no momento em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as pessoas fiquem em casa. Isso é um gesto de profunda irresponsabilidade, desrespeito ao ser humano. É um convite ao padecimento das pessoas, principalmente as com mais de 60 anos, que são as vítimas mais frequentes. Minha obrigação é defender vidas, proteger a vida dos brasileiros de São Paulo. Aqui não vai ser aplicada nenhuma medida que coloque em risco milhões de brasileiros que vivem em São Paulo. A nossa posição é de que as pessoas obedeçam a quarentena, fiquem em casa e sigam as orientações médicas que são amparadas pelo protocolo da OMS.

Efe: Quando o senhor diz que o Governo Federal faz campanha para que as pessoas voltem às ruas para que a economia brasileira não pare, refere-se a um vídeo que chegou a ser compartilhado em redes sociais pelo senador Flávio Bolsonaro, mas que a Secretaria de Comunicação do Planalto não reconhece como oficial?

Doria: O vídeo foi produzido pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal. Foi produzido, financiado com recursos públicos e com o objetivo exatamente de atender a esse sentimento do presidente Jair Bolsonaro de que não temos uma pandemia no Brasil, de que temos apenas uma crise de resfriado. Ou seja, é uma irresponsabilidade tão grande que eles não são capazes de assumir os graves erros que cometem todos os dias. Hoje o presidente da República, em uma entrevista a um jornalista aqui de São Paulo (José Luiz Datena, da "TV Band"), acusou o governo do estado de estar fraudando os atestados de óbito dos brasileiros que estão morrendo aqui por coronavírus, dizendo que as pessoas morrem por outras causas e que nós adulteramos os atestados de óbito para classificar como morte por coronavírus. É um absurdo, é de uma desfaçatez alguém dizer que em São Paulo nós estamos adulterando atestados de óbito para justificar o número de mortes daqueles que estão, de fato, morrendo pelo coronavírus. Nós temos um presidente que não está com as faculdades mentais em plenitude para poder exercer o comando do país.

Efe: O senhor acaba de afirmar que o Brasil tem um presidente que "não está com as faculdades mentais em plenitude". O que o senhor faria em uma situação como essa?

Doria: Essa é uma pergunta que deve ser dirigida ao Congresso Nacional, aos deputados, senadores. Eu, como governador, não devo avançar sobre o ponto de vista daquilo que pode ser feito. Apenas constato as sucessões de medidas equivocadas, estapafúrdias, contraditórias, que atentam inclusive contra a ordem pública e a vida das pessoas. Não é razoável que alguém que tenha o mandato de presidente da República cometa equívocos desta grandeza tantas vezes em um período tão curto de tempo. Não é alguém que está bem psicologicamente. É alguém que sofre algum problema de ordem psiquiátrica. Não é razoável que, enquanto em todos os países do mundo os mandatários pedem ou ordenam que as pessoas fiquem em casa, termos um presidente da República no Brasil, onde não chegamos no pico dessa crise, que diga às pessoas para que saiam de casa, desobedeçam às instruções dos governadores, abram seus comércios e sigam a vida como se nada estivesse ocorrendo. Não é só uma atitude irresponsável, conforme eu já mencionei. Não é só uma atitude impensável e inimaginável. É uma atitude de alguém que não está bem das suas faculdades mentais. Mas cabe ao Congresso avaliar e tomar a decisão, o que fazer com um presidente que não tem capacidade para raciocinar e interpretar e comandar um país.

Efe: Um estudo publicado pelo Imperial College de Londres apontou que se a quarentena não for respeitada por ninguém no Brasil e o número de testes para detectar a Covid-19 não se multiplicar, o número de mortos pela doença no país pode chegar a 1,1 milhão.

Doria: Nós estamos seguindo a orientação de um grupo de especialistas em epidemias e infectologia formado por professores, médicos, doutores e professores da Universidade de São Paulo (USP) desde 22 de fevereiro. Por isso é que tomamos decisões aqui fundamentadas, e não precipitadas. Contratamos também a consultoria da Deloitte para nos orientar sobre os procedimentos e os impactos na economia. Para que nós também no plano econômico possamos adotar medidas ajustadas, bem amparadas, e não fruto do desejo pessoal ou do ímpeto de quem quer que seja. A formação desse grupo científico tem nos ajudado a embasar todas as nossas decisões e colocá-las na hora certa. E estamos fazendo isso em conjunto com o Ministério da Saúde. O que é curioso: nós temos um presidente da República que manda as pessoas saírem de casa, manda desrespeitar as quarentenas que os governadores determinaram em seus estados. E o mesmo governo tem um Ministério da Saúde que, seguindo o protocolo internacional da OMS e em harmonia com os estados, orienta para que a quarentena seja obedecida.

Efe: Segundo uma recente pesquisa do Datafolha, Bolsonaro contou com avaliação "ótimo/bom" de 35% dos entrevistados sobre sua gestão da crise do coronavírus. Isso surpreende o senhor?

Doria: De certa é surpreendente sim, mas estes números antecedem a crise do coronavírus. Eles não são números apurados durante a crise, portanto eu entendo que algumas variações possam ocorrer. Mas, para quem chegou à presidência eleito com cerca de 60%, já é algo constrangedor, com 15 meses de governo, ter 35%.

Efe: O senhor alegou ter recebido mensagens de ameaça nas redes sociais. Sabe qual é a origem?

Doria: Eu suponho, mas quem está fazendo a investigação é a Polícia Civil de São Paulo. Registrei um boletim de ocorrência depois de uma entrevista ao "Jornal Nacional", da "Rede Globo". Meu telefone celular foi infestado de mensagens grosseiras, com xingamentos, ameaças de todo tipo. A partir das 22h30 (de quinta-feira) aumentou o número. Além de xingamentos e palavras chulas, houve ameaças: 'vou te pegar', 'vou te agredir', 'vou lhe matar' e 'vou invadir a sua casa'. E divulgaram a fotografia da minha casa, da parte frontal, o endereço completo e recomendando às pessoas que fizessem manifestação na porta da minha casa. Eu não resido no Palácio dos Bandeirantes (sede do governo estadual), embora pudesse, mas continuo residindo na minha casa. Obviamente reforcei a segurança em torno dela, a segurança da minha esposa, dos meus três filhos. A polícia está investigando e vai chegar à origem desse conjunto de mensagens.

Efe: Em sua denúncia pública, o senhor falou de um "gabinete do ódio". Do que se trata esse gabinete?

Doria: O gabinete do ódio todos sabem que fica dentro do Palácio do Planalto, no quarto andar, muito próximo da sala do presidente da República. O gabinete do ódio é comandado por dois filhos do presidente Jair Bolsonaro: Carlos, que é vereador, e Eduardo, que é deputado federal. E há, dizem, cerca de 15 pessoas que trabalham nesse gabinete apenas para produzir maldades, destruir adversários políticos, destruir jornalistas, destruir pessoas que, como formadoras de opinião nas área da cultura, da literatura, do plano empresarial, possam falar mal do presidente Jair Bolsonaro. É desse grupo que saem as mensagens mais agressivas pro mundo da cultura, as propostas que determinam posições de extrema agressividade contra jornalistas, inclusive mulheres.

Efe: O senhor é acusado de ter se aproveitado do nome de Bolsonaro para sua eleição como governador.

Doria: Durante as eleições de 2018, eu me apresentei como candidato do PSDB e defendi a candidatura do representante do partido, Geraldo Alckmin, que foi meu antecessor como governador de São Paulo. Alckmin não teve boa performance, ficou em quarto lugar, e dois candidatos foram para o segundo turno. Nas circunstâncias, entre um e outro (Fernando Haddad, do PT, e Bolsonaro), a minha opção foi o Jair Bolsonaro. Mas quero registrar aqui o meu mais profundo arrependimento de ter defendido a eleição de Jair Bolsonaro. Não teria feito a defesa da candidatura do PT, de Fernando Haddad. Não haveria a menor hipótese. Não houve, não há e nunca haverá, porque eu não voto na esquerda. Mas, a partir de agora, Jair Bolsonaro representa um grau de ameaça à democracia e à qualidade que se espera de um governante tão nocivo quanto foi a extrema-esquerda. Eu lamento ter que reconhecer que o Brasil saltou, num curto período, em menos de dois anos, de uma visão de extrema-esquerda corrupta, nociva e mentirosa, para uma extrema-direita nociva, mentirosa e com enorme vocação para o totalitarismo e para a defesa de um governo autoritário.

Efe: Quem o senhor vê como rival de Bolsonaro em 2022?

Doria: É um caso único na história da República do Brasil um presidente eleito, no segundo mês de mandato, anunciar ser candidato a sua própria sucessão. Desde o segundo mês de governo ele não governa, está faz um processo eleitoral e, com isso, ele hostiliza adversários, intimida a imprensa, critica o Poder Judiciário e mostra uma vocação muito grande para o autoritarismo. E, ao fazer isso, ele acredita que terá facilitado seu caminho para a reeleição. É a conduta típica de um autoritário. Nós já vivemos essa experiência no Brasil no passado, de 1964 e 1984, na ditadura militar.

Efe: O senhor se vê como candidato ou descarta essa possibilidade?

Doria: Eu coloco neste momento toda a minha força e toda a minha capacidade, e a equipe que nós montamos, para administrar São Paulo. Essa é a minha obrigação. Ainda mais diante de uma crise tão aguda quanto essa, do coronavírus, que afeta a saúde pública e afeta também a economia e o plano social. Nós sairemos dessa crise com muito mais desempregados do que quando entramos. Com muito mais pessoas totalmente desamparadas do que quando isso ocorreu, no final de fevereiro. E com uma economia totalmente vulnerabilizada, diferente do crescimento gradual, mas consistente, que já vinha ocorrendo no início deste ano. Agora é hora de fazer gestão, focar na administração, e não na eleição.