EFESão Paulo

Motivado pela saudade do que nunca viu ou vivenciou, um pesquisador carioca conseguiu uma façanha: catalogar 575 lugares do maior cartão postal do Brasil, o Rio de Janeiro, entre as décadas de 1950 e 1990.

Rafael Cosme nasceu e cresceu no Rio, mas encontrou em sua pesquisa locais que mudaram e, hoje, funcionam para ele como uma biografia da cidade maravilhosa, que passa por momentos de crise econômica, social e de segurança.

O livro é definido pelo autor como "um guia de turismo de um Rio de Janeiro que não existe mais" e é roteirizado com textos e documentos da vida cultural da cidade "utilizando retalhos de sua romântica memória pública", como descreve Rafael.

O mergulho pelo passado resultou em uma “utopia”, como o próprio autor classifica, entre a capital de hoje e a de 60 anos atrás. Para isso, ele passeou por documentos públicos da Biblioteca Nacional, fotografias e slides fotográficos encontrados em feiras e mercados de pulgas do Rio de Janeiro - um acervo único que o levou a cinco anos de pesquisa ininterrupta e solitária.

"Eu mergulhei nisso [no projeto] mais do que vivi a minha vida (…) O que eu quis fazer foi viver o Rio que eu não vivi, uma espécie de obsessão com a cidade”, contou em entrevista à Efe.

A publicação reúne programações culturais e críticas de espaços atualmente desativados, como bares, restaurantes e atrações que um dia formaram a identidade dos cariocas e da cidade maravilhosa.

O pesquisador destaca que a leitura dos textos é uma "caminhada pelos bairros como eles eram" por meio de listas com opções de lazer.

"Ao contrário da metrópole em formação que era de se esperar, encontramos no Rio de Janeiro uma cidade profundamente apaixonada por si mesma; se descrevendo com um carinho íntimo e sensorial geralmente reservado para casais de namorados, jovens amantes", escreveu o pesquisador.

Inspirado nos trabalhos literários do alemão Walter Benjamin e do poeta americano Kenneth Goldsmith, Rafael preparou um diário que reconta o Rio de Janeiro. Em cada página se encontra data, o lugar e a descrição turística do espaço a ser apresentado para oferecer uma viagem no tempo.

Entitulado provisoriamente de “Sonho Rio”, o projeto é uma continuação à ode de amor que Rafael faz ao Rio de Janeiro, já que, há alguns anos, lançou um disco chamado “Sonho Gávea”, homenageando o tradicional bairro carioca.

Segundo Cosme, a ideia do livro surgiu "acidentalmente" por sua paixão pela história da capital fluminense e, como ele descreve, foi “um passeio para mim mesmo”.

Graças à digitalização do acervo da Biblioteca Nacional, a pesquisa se desenhou nesses últimos cinco anos, se não poderia ter levado 20 devido ao volume de material encontrado.

O livro, que começou a ser desenvolvido em 2013, ainda está sem editora.

Nos escritos, o leitor encontra uma espécie de poesia diferente, urbana e sem rimas, que descreve bairros tal como eram: desde a Barra da Tijuca deserta às galerias de Ipanema; das casas de Jazz em Copacabana às pistas de patinação e boates góticas.

"Assim é o Sonho Rio – textos descritivos, expondo uma cidade mais sensível e sentimental que a dos dias de hoje, explicando e ao mesmo tempo combatendo a falta de memória crônica que existe em nós cariocas; um ser tão acostumado com paixões intensas e passageiras que, como observamos nos textos do livro, incorpora elas ao seu dia a dia", apontou o autor.

A obra é organizada em ordem cronológica e funciona como um diário para dar a sensação ao leitor de que a cidade foi se transformando. "É uma maneira única de contar a história da cidade contemporânea e perdida. Um livro de história, turismo, poesia e saudade", finalizou.