EFEIrene Escudero. Bogotá

Apesar de ter pertencido à guerrilha M-19, Gustavo Petro prefere ser chamado de revolucionário, e não guerrilheiro, porque foi liderando revoluções que sempre se sentiu à vontade, e a mais recente delas é a de levar a esquerda pela primeira vez à presidência da Colômbia nas eleições do próximo domingo.

Esta é a terceira vez que ele tenta chegar ao poder, mas de acordo com as pesquisas, Petro está mais perto do que nunca de ganhar a eleição para a presidência, embora seja provável que tenha que disputar um segundo turno. Apenas seu grande rival na política, o ex-presidente Álvaro Uribe, conseguiu se eleger em primeiro turno na Colômbia.

Nascido em Ciénaga de Oro, uma cidade do departamento caribenho de Córdoba, em 1960, Petro cresceu e estudou no interior do país, em Zipaquirá, cidade andina perto de Bogotá. É o mais velho de três irmãos, de uma família de classe média, com pai do litoral e mãe do interior.

Essa mistura está preservada em seu caráter: tímido, calado e orgulhoso pessoalmente, como é descrito, mas um grande orador e sempre muito confortável quando sobe ao palco em uma das praças públicas que costuma lotar nos últimos dias, onde deslumbra seus ouvintes com frases grandiloquentes e discursos cativantes.

PASSOS NA GUERRILHA.

"Una vida, muchas vidas", a autobiografía que publicou poucos meses antes da campanha, conta que Petro sempre se sentiu deslocado, solitário e deixado de lado, além de também abordar uma certa arrogância com a qual se impôs a muitas situações de sua vida.

Na escola La Salle de Zipaquirá, a mesma por onde passou Gabriel García Márquez, respondia aos padres com essa arrogância, e foi nessa época em que começou a militar, lendo intelectuais marxistas. Em 1978, aos 18 anos, decidiu ingressar no M-19 , onde realizou principalmente tarefas de conexão urbana e não tanto de luta armada, até a desmobilização do grupo, em 1990.

Dos 12 anos em que esteve no M-19, sob o codinome "Aureliano", como o personagem de "Cem Anos de Solidão", passou três na clandestinidade e outros dois na prisão.

Petro foi capturado em 1985 em Bolívar 83, bairro popular de Zipaquirá que ele ajudou a fundar, e foi torturado como tantos guerrilheiros da época.

"Não senti a dor da tortura até chegar à prisão. Durante os dias sombrios dos espancamentos, nunca me senti fisicamente abatido, embora psicologicamente tenha sido difícil, porque senti que, de alguma forma, minha vida havia mudado", descreveu ele em sua autobiografia.

A invasão do Palácio da Justiça, um dos episódios mais sombrios do M-19, levou Petro para a cadeia e, devido ao seu cargo, muito baixo na organização, pouco podia saber sobre aquela ação que acabou sendo esmagada pelo Exército com quase uma centena de mortes.

O MAIS BRILHANTE CONGRESSISTA.

O Petro que quer ser presidente em 2022 está longe desses anos de guerrilha, e seu período como parlamentar certamente combina mais com sua personalidade. Nunca se sentiu à vontade com armas, mas sim com as palavras, com as quais se defendeu na Câmara dos Deputados e no Senado.

Nessas casas tornou-se "um dos congressistas mais brilhantes que a Colômbia já teve", como é habitualmente classificado, e ganhou popularidade no início dos anos 2000 por suas denúncias das conexões entre políticos e paramilitares, convertendo-se também em uma dor de cabeça para o ex-presidente Uribe e conseguindo o indiciamento de várias pessoas.

A primeira ameaça que Petro recebeu, das muitas que viriam depois e que agora o fazem subir ao palco cercado de guarda-costas e com um dos maiores esquemas de segurança do país, foi em 1994 e obrigou-o a exilar-se na Bélgica.

Petro relata com amargura sua passagem por Bruxelas, longe de todos, e com episódios depressivos que superou cursando uma especialização em Meio Ambiente na Universidade de Louvain, que ele acrescentou à licenciatura em Economia na Universidade Externado, em seu país natal, enquanto era militante do M-19.

POLÊMICAS NA PREFEITURA.

Em 2011, Petro foi eleito prefeito de Bogotá pelo partido Progressistas. "Sou o candidato do progressismo", repete ainda hoje, com frequência, para sair da “caixa da esquerda".

Aqueles que trabalharam com ele na prefeitura dizem que não é uma pessoa fácil de lidar, não é muito dado a trabalhar em equipe e toma decisões sozinho. Isso provocou inúmeras demissões e a mudança de mais de 50 dirigentes nos quatro anos de gestão.

Seu caráter de não ter medo do confronto também lhe rendeu uma destituição, determinada pela Procuradoria Geral da República por suas decisões na gestão da coleta de lixo na cidade e que quase causou também sua inabilitação política, que acabou sendo revogada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Casado e pai de seis filhos com mulheres diferentes, chega à sua terceira tentativa à presidência longe de vários dos seus grandes companheiros de viagem, e sem muitas das ideias "revolucionárias" que defendia.

Agora vem acompanhado de alguns parceiros de campanha mais pragmáticos e menos idealistas, como o senador Armando Benedetti, que passou por inúmeras legendas de diferentes matizes e é uma de suas pessoas mais próximas no momento.

Também é o caso da advogada e ativista Francia Márquez, que soube ouvir o descontentamento das ruas e resgatou apoiadores cansados ??do personalismo de Petro.

Em 2010, na sua primeira tentativa, obteve apenas 1,3 milhão de votos, e em 2018, com mais de 8 milhões, esteve a um passo de chegar à Casa de Nariño, sede da presidência colombiana.

Agora, depois de deixar para trás algumas das ideias mais radicais da esquerda e tentando somar forças mais tradicionais - aquelas que sempre criticou por sua corrupção e clientelismo -, espera que a terceira vez seja a vitoriosa. EFE